4 de abril de 2018

Ar Frio

O post de Março para o Projeto Um Ano Com H. P. Lovecraft será sobre o conto "Ar Frio", vez que “A Cor Que Caiu do Espaço”(oficial para o mês) já tem post AQUI. Ao contrário do que muitos pensam, o legado de Lovecraft vai bem além dos "Mitos de Cthulhu", abrangendo contos que formam o chamado "Cliclo dos Sonhos", além de outros de horror "puro”. A influência de Poe e Chambers é mais evidente nesta última categoria, que é também onde está a obra de que falarei hoje.
Procurei não revelar tanto sobre o conto, porém devido o seu tamanho e minha necessidade de apontamentos, é bem difícil dizer se consegui. Se você é sensível a spoilers, leia por sua conta e risco. Os que, assim como eu, acharem que o importante é o desenvolvimento e não apenas os acontecimentos, boa leitura!

           "Ar Frio" (ou "Vento Frio" dependendo da edição) foi escrito em 1926, porém publicado pela primeira vez apenas em 1928, na revista “Tales of Magic and Mystery”. Antes, porém, foi rejeitado pela Weird Tales, aparentemente pelo receio do editor que o final pudesse  atrair a censura. O conto se passa na nossa realidade factual, utilizando apenas de artifícios científicos para introduzir o pungente horror da narrativa. Traz uma narrativa em primeira pessoa dedicada a explicar a razão pela qual o narrador sente repulsa do frio como alguém sente de um  mau cheiro.

O protagonista nos explica que após muito procurar uma hospedaria que mesclasse boa integridade física, limpeza e preço justo, findou por se conformar com uma antiga mansão que funcionava como pensão. Poucas semanas após sua entrada, começou a reparar coisas estranhas. A primeira foi uma infiltração que parecia vir do andar de cima e cujo liquido cheirava a amônia. Ao questionar a senhoria da casa, descobriu que a causa deveria ser o morador do quarto acima, conhecido como Dr. Muñoz, médico aposentado e recluso que sofria de uma grave moléstia para a qual vivia testando experimentos.

Devido aos seus problemas cardíacos, o narrador, certa vez, precisou de ajuda e recorreu ao Dr. Muñoz, que prontamente o salvou. Pela gratidão, o narrador se viu impelido a fazer pequenos favores ao senhor, desde visitas frequentes, até suas compras.

           A temperatura congelante do quarto do médico, o forte cheiro de amônia e o aparente desdém do velho com a morte causavam certa repulsa no protagonista. No entanto, ele se continha por saber que a baixa temperatura era imprescindível para o tratamento encontrado pelo médico e que a amônia era "combustível" do mecanismo responsável pelo resfriamento.

Mesmo com a crescente aversão pelos frios aposentos do doutor, o narrador continua a visitá-lo e  ajudá-lo como pode. Contudo, as coisas saem do controle quando, em uma madrugada, a máquina responsável por refrigerar o quarto do velho para de funcionar.
Um dos méritos da obra é a ambientação, que foge do clichê e não se ampara na escuridão ou lugares ermos. Ao invés disso, foca-se na atmosfera gélida e nos cheiros estranhos de um quarto, no meio de uma pensão movimentada, em plena Nova York de 1923. O desfecho do conto é muito bem feito e, mesmo que não te deixe surpreso como deve ter deixado os leitores da época, vai te deixar, pelo menos, satisfeito.

        "Ar Frio" é desprovido de horrendas criaturas alienígenas ("Dagon" e "O Chamado de Cthulhu"), desvencilhando-se dos Mitos de Cthulhu, do Ciclo dos Sonhos e encaixando-se perfeitamente como um típico conto de horror. Lovecraft era um fã assumido deste tipo de história, citando sempre Edgar Allan Poe como uma inspiração, o que fica evidente em obras como esta. A partir disso, podemos traçar alguns comparativos entre esta história e algumas de Poe.

Recursos comumente utilizados por Poe e empregados neste conto são: o narrador sem nome que se dispõe a relatar o motivo de sua perturbação, a utilização de aparato científico ou pseudocientífico para embasar a narrativa e a inserção de elementos autobiográficos. Em “O Enterro Prematuro”, por exemplo, Poe citou o uso de baterias que pode ser visto como “ancestral” do desfibrilador. Da mesma forma, o processo de refrigeração aqui citado pode ser tido um “embrião” da criogenia.

"Ar Frio" é constantemente comprado a um conto específico de Poe (Os fatos sobre o caso do Sr. Valdemar), creio que por proporcionarem ápices semelhantes. A obra de Poe narra uma experiência médica envolvendo hipnotismo em um paciente moribundo. Ainda assim, Lovecraft chegou a dizer que o conto que inspirou o seu foi “The Novel of the White Powder”, de Arthur Machen.

Quanto aos elementos autobiográfico contidos nesta obra, podemos destacar o próprio narrador, que consegue “um trabalho editorial tedioso e mal remunerado em uma revista em Nova York”, assim como o próprio Lovecraft que nunca encontrou sucesso em vida, se mantendo de publicações, na maioria das vezes mal remuneradas,  em revistas pulp. Ao procurar uma hospedaria, o protagonista enfatiza que não é seu objetivo ficar ali muito tempo, apenas busca um local para “hibernar até que pudesse voltar de fato à vida”. Lovecraft escreveu o conto durante sua infeliz estadia em Nova York, e da mesma forma, almejava voltar "à vida" em Providence, sua amada cidade natal. Outra semelhança entre o autor e o narrador é a sensibilidade ao frio.

Recomendo a leitura de "Ar Frio" tanto para quem já leu algo de Lovecraft quanto para quem quer conhecê-lo. Independente das inspirações literárias ou reais, o conto se sustenta muito bem tanto em sua premissa quanto na ambientação e execução. É um dos meus contos de horror favoritos e, mesmo tão curtinho, nos dá um ótimo panorama da habilidade de Lovecraft com a escrita.

O conto foi adaptado várias vezes para filmes e televisão e para as histórias em quadrinhos algumas vezes, uma delas ilustrada pelo grande Bernie Wrightson e outra nas histórias do Batman (The Doom That Come to Gotam), onde Mr. Freeze é uma “versão” de Dr. Muñoz.


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