22 de março de 2018

Nós - Yevgeni Zamyatin


"Nós" foi o livro escolhido para iniciar o Projeto Fim dos Tempos. A obra foi escrita em 1920/1921 por Yevgeni Zamyatin e é considerado a primeira distopia. Entre os autores influenciados pela obra está Adous Huxley, renomado no gênero supracitado e ficção científica.
Arte de Eda Akaltun
A trama se passa em futuro distópico, no ano de 3000, quando a sociedade evoluiu com base nos padrões lógicos e é organizada de forma totalmente racional, prezando sempre pela organização e razão e quase extinguindo coisas como sentimentos. O lugar é regido por um governo totalitário, o Estado Único, que determina as horas para todas as coisas. Assim, todos têm a hora pré-estabelecida  para acordar, fazer a higiene pessoal, as refeições, exercícios, trabalhar e até sexo. Este último é regulado através de cupons que estipulam os dias e horários, vez que toda pessoa pode escolher qualquer outra para ser seu parceiro sexual. 
A ideia central é que o Estado Único promove a felicidade de seus cidadãos, dando-lhes uma sociedade sem pobreza, sem fome, sem violência, sem vícios ou drogas e tratando absolutamente todos igualitariamente, em troca, suprimem "apenas" o direito à liberdade. Desta forma, vemos um lugar com pessoas de comportamentos completamente engessados e presos aquele cotidiano estabelecido. A falta de individualidade é representada principalmente por dois fatos: Primeiro, as pessoas não possuem nome e sim uma letra (para designar o sexo) seguida de um número para lhes representar. Segundo, que as paredes e edificações são todas de vidro, reforçando o pressuposto de que ninguém tem nada a esconder de ninguém.


A premissa do livro é muito boa, traz a história de D-503, um engenheiro responsável pela construção do Integral, nave cuja missão é transportar odes, poemas e outras obras que levem para outros mundos a beleza da sociedade unificada pela razão. O construtor é também nosso narrador e, assim, vemos como sua vida era feliz. Ele era uma molécula do Estado Único, que compreendia e até adorava essa sua condição de ser uma parte do todo, ter seu papel e nenhuma individualidade. O título é "Nós" justamente porque é o nome que leva a obra escrita por D-503, uma ode ao brilhantismo do Estado Único. "Nós" dá a ideia de unidade, de coletividade. "Nós" é o todo unificado que é o Estado Único, onde cada um é uma parte infinitesimal do todo e o "Eu" não existe. 
No entanto, a felicidade de nosso protagonista acaba quando ocorre seu encontro com a personagem E-330. Desde o primeiro momento ele tem uma repulsa instantânea por ela, porém só percebemos o porquê disso depois. O impacto causado pelo encontro é profundo nas crenças e sentidos do protagonista, ocasionando um desmantelo de tudo que ele tinha como certo. Isso causa até uma especie de colapso no personagem quando da "percepção da existência da alma". Essa mudança de paradigmas é vista como doença porque nesta sociedade organizada por números são incomuns questionamentos filosóficos acerca da vida, da existência e dos sentimentos. 
É interessante ver o impacto do imprevisto, do errado (representado por E-330), numa mente onde tudo tem seu lugar, segue um padrão. A ojeriza, a primeiro momento, vai dando lugar para o fascínio e até amor, mexendo completamente com a cabeça do protagonista, nascido e crescido vendo tudo correndo na ordem. As ideias passadas para o papel nos dão o panorama da visão inicial de D-503 e vamos acompanhando as mudanças, questionamentos e reflexões dele acerca de como as coisas são e se aquele é o melhor jeito delas acontecerem. 
         Conformismo absoluto e felicidade, dúvida e angústia, revolução e medo, loucura e paixão são alguns dos pensamentos e sentimentos que permeiam o protagonista no decorrer da trama. Há sempre ênfase na dualidade interna e insegurança dele, que acabam sendo passadas para nós e promovendo reflexões sobre a felicidade e a liberdade. Também estimula o exercício de imaginação sobre a possibilidade de o homem poder se desapegar de seu lado emocional e viver plenamente guiado pela razão, como uma máquina. 

          Até a narrativa é meio mecânica, o que pode ajudar a emergir na história, mas também atrapalhar um pouco o ritmo da leitura. Por vezes é meio confuso entender o que está acontecendo e a importância disso, mas ao longo da leitura você vai se acostumando e respondendo mais rápido a essas situações. 
A história é muito interessante e é sempre muito bom conhecer os pioneiros dos gêneros, ver a fonte onde autores queridos e/ou renomados se inspiraram, o que foi copiado ou aprimorado. Neste caso, o ponto alto, para mim, foi a originalidade do roteiro. Os pontos fracos são coisas que fazem sentido na história, mas poderiam ter sido melhor trabalhados: a narrativa meio confusa já citada e a mudança do personagem, outrora frio e depois excessivamente sentimental. 
Devido às criticas sociais que o livro carrega, "Nós" não só não foi publicado primeiro no país de origem do autor, a Rússia, como também foi motivo de problemas de Zamyatin com o governo dos bolcheviques. O autor foi exilado de seu país natal duas vezes, uma das quais ele mesmo escreveu uma carta ao Qzar requisitando a saída do país, pois não aguentaria a morte literária que lhe era infligida, proibindo qualquer publicação de seus escritos. "Nós" só foi publicado na Rússia 60 anos após seu lançamento e Zamyatin morreu longe na pobreza e quase sem reconhecimento. 
Seu legado, porém serviu de inspiração para diversos livros e criou o gênero das distopias, abrindo as portas para obras clássicas como Admirável Mundo Novo, Laranja Mecânica e mesmo livros mais novos como Jogos Vorazes. 
Coincidentemente, dia 14 de março foi "Dia do PI" e como uma data comemorativa poderia me lembrar mais o livro do que essa? Fica aí o doodle do Google em homenagem a esse dia para provar que é real e oficia! Haha


Espero que tenham gostado, que acompanhem as próximas resenhas do projeto Fim dos Tempos e que, se puderem, se juntem a nós nas leituras! 
Beijo e até mais!








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