25 de fevereiro de 2018

O Chamado de Cthulhu

O segundo conto do “Um ano com H. P. Lovecraft” é o famoso O Chamado de Cthulhu. Este que vem a ser o monstro mais famoso do horror e cuja influência é amplamente conhecida no cinema, na música, nos jogos e mesmo nas ilustrações, teve sua primeira aparição no conto mencionado. Sua publicação original aconteceu em 1928, na revista Weird Tales, bem familiar para os amantes lovecrafteanos.


Infelizmente, quando de seu lançamento, a obra não teve grandes reconhecimentos. Até o próprio autor não achava o conto lá muito bom. No entanto, o tempo fez justiça ao “Chamado”, assim como fez com o legado de Lovecraft e seu nome. Atualmente, o conto O Chamado de Cthulhu é tido como um clássico da literatura de horror americana e o monstro que lhe dá nome é o maior ícone do subgênero criado pelo autor: o horror cósmico. Ele é referenciado, inclusive, na denominação do grupo ou ciclo de contos encabeçados por Dagon, os “Mitos de Cthulhu”. 
A história nos é narrada em primeira pessoa por Francis Wyland Thurston, que recebe a herança de seu tio George Gamell Angell. O falecido teve uma morte um tanto misteriosa, então, levado pela curiosidade e também pelo seu dever como executor da herança, Francis se pôs a investigar os estudos do tio, que era um renomado professor de idiomas e semiótica, além de grande especialista em inscrições antigas. 
Nessas investigações, nosso narrador encontra uma curiosa estatueta de um monstro acompanhada de entalhes de uma escrita muito antiga, cunhada em baixo relevo. A estranha figura mais as anotações que acompanhavam o peculiar artefato foram responsáveis por conduzir Francis numa jornada de descobrimentos nefastos, envolvendo cultistas vis, sacrifícios humanos e criaturas mais antigas que o tempo e de maldade absoluta, cujo simples sussurro seria capaz de perturbar uma mente sã ou enlouquecer as mais suscetíveis. 

"Disseram ser adoradores dos Grandes Anciões que viveram eras antes do primeiro homem nascer e chegaram a um mundo ainda jovem vindos do céu."  
Francis vai juntando pistas nos escritos do tio e entrevistando pessoas citadas em seus papeis para construir o panorama que pode ter causado sua morte. Porém, isso é só uma parte das descobertas do narrador. Acidentalmente, ele conhece a curiosa história da escuna* Emma e seus tripulantes e, assim, parte para as suas próprias investigações de campo que o levam rumo a criaturas vindas das estrelas e adormecidas no fundo do mar.

[Pode conter Spoiler -  leia por sua conta]
O fio condutor da trama é a busca por conexão entre as criaturas nefastas que perturbaram os sonhos de um jovem escultor e outras pessoas, (especialmente artistas e poetas), as terríveis monstruosidades cultuadas tanto no extremo Norte do Globo quanto no Pântano de Louisiana e o desembarcar de marinheiros em uma ilha desconhecida cujos pesadelos pareciam caminhar.
Neste panorama, descobrimos quem seria Cthulhu: o sacerdote e guardião de R’lyeh, lar de criaturas alienígenas que, apesar de não estarem vivas, jamais estariam mortas, esperando adormecidas pelo alinhamento de estrelas que as traria de volta das profundezas do mar para reinar mais uma vez na superfície terrestre e espalhar o caos e a morte. 

“Ph’ngui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn”

O conto é um épico focado na investigação do narrador, que se inicia em Rhode Island e o conduz também a outros países como a Austrália e posteriormente a Noruega. Todos os fatos narrados na história se deram ao longo de várias décadas, desde o descobrimento dos macabros cultistas na expedição ao Norte, a convenção de arqueologia, os sonhos do escultor, os terrores vividos pelos tripulantes do Emma, a morte de Angell  e a narrativa feita por Francis.Assim, ele busca nos mostrar que o culto a Cthulhu vem de tempos imemoriais, desde os primeiros homens que ouviram, em sonhos, as palavras e canções do Grande Sacerdote.
A parte em que é narrado o aparecimento do navio Vigilant na costa e todo o mistério acerca de sua tripulação me lembrou muito o caso da embarcação "Demeter", contado em "Drácula", de Bram Stoker. Em ambos os casos a primeira notícia surge de um jornal, ambas as tripulações estão praticamente dizimadas (com apenas um sobrevivente) e só ficamos sabendo dos terrores enfrentados no mar pelo diário de um dos homens, mas já temos acesso a ele depois do falecimento de seu autor. Se é mera coincidência que no "Drácula" também haja menção de uma embarcação de nome Emma, da curiosa matéria de jornal ter conexão com a trama principal e haverem horrores revelados por meio de diários de bordo, eu não duvido. No entanto, como a obra de Bram Stoker foi publicada 31 anos antes, existe a possibilidade de que ela possa ter servido de inspiração parra Lovecraft.
[Fim dos spoilers]

O culto a Cthulhu pode ser visto hoje em diversas músicas, nos jogos tanto de RPG online quanto de tabuleiro, nos filmes e nas séries de TV, com destaque para os episódios de South Park onde o grandalhão aparece e para a abertura dos Simpsons dirigida por Guillermo Del Toro.



Sobre a pronúncia do nome do grande sacerdote Cthulhu, o difundido é que não há uma pronúncia correta, vez que os nomes das entidades foram forjados em uma língua alienígena e, assim, improferíveis pelos nossos fonemas, mais se assemelhando a guturais. Assim, as pronúncias variam muito, sendo Ku-tu-lu, Kloo-loo, Ka-tu-lu, e até o Ka-txu-lu, da dublagem de South Park,  bem  comuns.

*Escuna é um tipo e veleiro caracterizado por usar velas de popa a proa em dois ou mais mastros.




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