25 de janeiro de 2018

Dagon e O Forasteiro

Este é o primeiro post do Projeto Um Ano Com H. P. Lovecraft. Provavelmente só de olhar para o layout do blog vocês já constatam que eu adoro o universo deste autor e, por isso mesmo, não poderia ficar de fora deste projeto literário. A proposta do projeto é ler um conto do autor por mês e depois debater a respeito da leitura no grupo do facebook.
 Para dar início ao projeto, o mês de janeiro não ficou com apenas um, mas com dois contos: Dagon e O Forasteiro. Ambos são bem curtos e muito bons para introduzir os leitores na escrita e atmosfera características das obras do autor.
Dagon é um conto muito icônico na "bibliografia" de Lovecraft. Foi publicado pela primeira vez em 1919, na revista The Vagrant, e faz parte do que hoje se conhece como "Cthulhu Mythos" (ou Mitos de Cthulhu). "Dagon", a criatura abominável que dá nome ao conto foi a primeira desse panteão a sair da cabeça de H.P. Lovecraft, ainda em 1917.

O conto traz o relato de um homem inebriado por morfina e prestes a se suicidar. Durante a Primeira Guerra Mundial, o homem foi comissário da Marinha e foi justamente nesse período que ocorreram os horrores que o motivaram a decidir tirar a própria vida.

Zona de spoler
Ele conta que durante tal período, seu navio foi capturado por inimigos alemães, no Pacífico, mas devida a gentileza como eram tratados, ele conseguiu escapar facilmente em um pequeno barco.

Após dias a deriva, o narrador já estava temeroso por sua vida quando durante seu sono, o barco atracou em uma ilha. Ao acordar, teve a grata surpresa de se ver em terra firme, no entanto, o cheiro pútrido que exalava do que parecia ser uma ilha desabitada o deixou espantado. Estranhou ainda mais ver como o chão da ilha estava encharcado, como se tivesse acabado de emergir do mar.

Quando finalmente pôde explorar a ilha, descobriu nela uma obra arquitetônica que o deixou extasiado: um enorme monólito, com estranhos desenhos e inscrições, que parecia ter sido um objeto de adoração. Concluiu, horrorizado, mas com certa empolgação, que o lugar deveria ter sido habitado por seres muito antigos, mas conscientes, que adoravam o grotesco deus-peixe, representado no monolito.

Embasbacado pela descoberta das criaturas que outrora habitaram a ilha e seus deuses terríveis, mais antigos que o tempo, o narrador custa a se dar conta de que não é o único no lugar. Sua última lembrança antes de desmaiar é de uma enorme criatura tentacular cujo simples vislumbre foi o suficiente para questionar os axiomas da existência e não suportar mais uma existência num mundo que guarda horrores de magnitudes inconcebíveis.

Fim dos spoilers
“Não consigo pensar no mar profundo sem estremecer com as coisas inomináveis que podem neste exato momento estar arrastando-se e espojando-se em seu leito viscoso, adorando seus antigos ídolos de pedra e cinzelando a sua própria e detestável semelhança em obeliscos submarinos de granito encharcado. Eu sonho com o dia em que elas poderão ascender acima dos vagalhões para arrastar para o fundo com suas garras fétidas, os remanescentes de uma humanidade debilitada, exaurida pela guerra — o dia em que a terra deva afundar, e o fundo negro do oceano erguer-se em meio a um pandemônio universal.”

“Que tendo visto os homens de Asdode, disseram: Não fique conosco a arca do Deus de Israel, porque a sua mão descarrega duramente sobre nós e sobre Dagom, nosso Deus.” (Samuel 5:7)
Grande parte das inspirações para os contos de Lovecraft vinha de seus pesadelos constantes. “Dagon” foi inspirado em um deles.

Outro fato curioso é que o nome Dagon não é uma criação de Lovecraft. O autor costumava utilizar várias mitologias e deuses para construir seu panteão e suas histórias, sendo pioneiro na associação de antigos deuses a criaturas cósmicas ou extraterrestres. Assim, Dagom é o nome de um antigo Deus fenício, metade homem, metade peixe*, que inclusive, é citado na bíblia como um deus dos filisteus. Lovecraft mesclou o culto e a antiga entidade mitológica a sua história, amarrando bem o enredo através da atmosfera da criada.

Neste conto, como na maioria, o autor se aproveita de semelhanças com a realidade para depois nos colocar face a face com seu o horror cósmico. Com a dúvida sobre estarmos sozinhos neste mundo. Um primeiro contato com o grande "E se?" tão característico das obras do autor.

           Também podemos relacionar este conto com "A Sombra de Innsmouth", em que o protagonista chega à cidade que dá nome ao conto e começa a descobrir a relação de seus habitantes  com o antigo culto a um "deus-peixe" e como aquilo tem relação com as estranhezas que lá conhece. (Post AQUI sobre este conto

Ilustração de Patrick Dean
O conto “O Forasteiro”, foi publicado originalmente em 1926, na revista Weird Tales, que viria a lançar vários outros contos de Lovecraft. É um conto simples, mas de atmosfera bem construída, típico das obras do autor.
Através das palavras do narrador, somos apresentados a seu mundo de ignorância e escuridão. Assim como no Mito da Caverna de Platão, o narrador tem ciência de que há um mundo lá fora e, apesar de temer o que pode encontrar, aquilo o deslumbra.
Quando finalmente decide se aventurar em busca da luz, a encontra e também a beleza. Porém, pouco depois é surpreendido pela "monstruosidade" e fica aterrorizado pela revelação/ constatação que tem ao final da narrativa.
O conto nos faz questionar sobre as expectativas que as vezes criamos de algo e como elas podem nos mover em busca de nossos sonhos, mas também ser nossa perdição. A busca pelo convívio social e a posterior frustração de perceber que não se encaixa nos padrões para desfrutar desta podem ser muito mais duros do que a vida de privação na ignorância.
Sabendo que o próprio Lovecraft  tinha sérios problemas nas relações interpessoais, podemos encontrar elementos até autobiográficos na composição do conto e isso nos dá até um olhar mais impactante da obra.
            Lovecraft é, conhecidamente, fonte de referência para muitos autores, diretores  roteiristas, desenvolvedores de games e músicos. Uma das inúmeras músicas inspiradas em seu Universo é "It Grieves my Heart", da banda Draconian. Ela faz referência, especificamente, ao conto "O Forasteiro", conconta até com cicitações literais da obra original de Lovecraft. 
"I know always that I am an outsider; a stranger in this century and among those who are still men.| Eu sempre soube que sou um forasteiro, um estranho neste século e entre aqueles que ainda são homens."




*Em algumas traduções, Dagom não tem relação com água ou peixe, mas  significa Pão-Trigo.



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