30 de novembro de 2016

Ligéia - #12MesesDePoe

O penúltimo conto do #12MesesDePoe é “Ligéia”, publicado pela primeira vez em 1838. Este conto é bem icônico e aqui no post, como o habitual, farei um resumo dele, mas COM SPOILERS, então, se ainda não leu o conto e se incomoda com spoilers, melhor parar por aqui. 

Ilustração de Abigail Larson


Somos conduzidos pela história, mais uma vez, por um narrador sem nome, que, apesar de não conseguir lembra-se de como conheceu sua esposa ou seu sobrenome, nos fala dela com grande devoção. Ligéia era o nome de sua linda e inteligente esposa, cujos cabelos eram encaracolados e negros como um corvo. Apesar de descrever sua aparência e ressaltar sua beleza, o narrador fala que esta é meio exótica também, bem como seus olhos negros e profundos.

Sua esposa era também sua condutora nos estudos metafísicos que faziam, motivo a mais pelo qual o narrador era impressionado com a inteligência acima do comum de sua esposa. 

Eis que sua amada é acometida por uma doença e acaba morrendo. Em seu leito de morte, ela pede que o marido leia um poema que ela escreveu a respeito da morte e cita Joseph Glanvill em suas últimas palavras: 

 O homem não se entrega aos anjos, nem se submete à morte, senão pela fraqueza de sua débil vontade.

Algum tempo depois, o narrador muda de país, a fim de deixar a lembrança de Ligéia e parte para a Inglaterra. Lá, se casa com Lady Rowena de Tremaine, cujas feições são totalmente opostas a de Ligéia: cabelos bem loiros e de olhos bem azuis.

Após o casamento, a segunda esposa passa o tempo todo no quarto nupcial, que é lindamente decorado, incluindo tapeçarias de ouro, porém, logo ela também começa a ficar doente, e, em sua doença, fica extremamente assustada com as tapeçarias do cômodo, das quais tem a impressão de estarem vivas.

Mesmo após algumas melhoras, Rowena morre. O narrador fica com o corpo durante a noite, mas devido ao seu vício em ópio fica meio alheio ao ambiente, até que nota que a vida parece estar voltando ao corpo da esposa. Antes que possa fazer algo, Rowena jaz imóvel de novo. Outra vez o corpo volta a ganhar aspecto vívido e, desta vez, levanta-se e caminha pelo quarto, no entanto, ao observar a pessoa de pé, o narrador fica atônito com o que vê sob a mortalha, jurando se tratarem dos cabelos encaracolados e negros de Ligéia..  

 E então se abriram vagarosamente os olhos do vulto que estava à minha frente. Aqui estão, afinal - chamei em voz alta -, nunca poderei enganar-me … Estes são os olhos grandes, negros e estranhos de meu perdido amor…de Lady. . . de Lady Ligéia!

Não temos certeza, afinal, se é Ligéia ou não quem levanta do caixão (ou mesmo se alguém levanta dele), vez que o vício do narrador faz dele uma testemunha sem muita credibilidade. Ainda mais pelo fato do homem ser obcecado com a memória da primeira esposa. Porém, não podemos descartar a hipótese de ter realmente ocorrido. Primeiro porque o elemento sobrenatural é recorrente nos contos do autor, e, segundo porque as frases ditas por Ligéia no leito de morte dão a entender que a força de vontade é capaz de sustentar a vida e, neste, caso, a vontade do narrador de vê-la viva pode ter sido responsável por seu retorno.

Essa aura de mistério e o tormento do narrador de viver sem a presença de sua amada nos conduzem pela narrativa de forma bem eficiente e embora a escrita não seja bem fluida, a leitura não fica chata ou massante, mais um mérito de Poe.

Assim como nos outros posts do projeto, vou citar alguns dos elementos presentes em “Ligéia” que se repetem em outros contos do autor. Alguns deles são: o narrador anônimo (elemento quase obrigatório), o fato de o narrador ser viciado em alguma substância que inebrie seu raciocínio,  a morte precoce da figura feminina e a fixação por uma parte específica do corpo (aqui os cabelos e olhos negros).

O conto me lembrou bastante "Morella". Creio que pelo fato de sua primeira esposa ser bem culta e estudiosa de assuntos metafísicos, mas também pela descrição dos olhos profundos da personagem. As duas também morrem precocemente, mesmo que aí haja a diferença primordial de que o esposo de Morella quase desejava o fim da vida de sua esposa, ao ponto que em "Ligéia", o narrador fica devastado com a perda da esposa. Além disso, o narrador de Morella deixa bem claro que nunca houve amor entre ele e a esposa, enquanto o narrador de Ligéia apresenta tanta devoção à esposa que não consegue nem lembrar quando começou a amá-la.  

Se vocês tiverem algo a acrescentar às minhas impressões, fiquem a vontade! Vou adorar saber seu ponto de vista sobre este conto e também se eu tiver deixado algo passar desapercebido.




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