23 de setembro de 2016

O Mundo de Aisha - A Revolução Silenciosa das Mulheres do Iêmen

Há pouco tempo aconteceu a Book Friday, na Amazon e com muitos títulos com um bom desconto, resolvi fazer umas aquisições que já queria há tempos, entre elas, o quadrinho “O Mundo de Aisha”, da editora Nemo.
O responsável pela HQ é Ugo Bertotti e ela é baseada nas fotos e entrevistas que a fotojornalista Agnes Montanari fez enquanto estava no Iêmen. Agnes foi ao país acompanhando o marido que estava na Cruz Vermelha, porém sabia pouco sobre o país além de que este tinha um dos mais baixos PIBs do mundo, apresentava uma enorme quantidade de armas (cerca de 2 por habitante, incluindo os recém nascidos) e de que Osama Bin Laden era originário dali. 
Lá chegando, a curiosidade acerca das misteriosas mulheres por baixo dos niqabs (véu negro que encobre todo o corpo, com exceção dos olhos) que são subjulgadas pela cultura patriarcal baseada em interpretações religiosas conservadoras.
“Cobertas de um véu negro da cabeça aos pés, elas andam na rua silenciosamente como fantasmas. Elas se chamam Sabiha, Hamedda, Aisha, Nabiha ou Ghada. Tantos nomes, tantos desejos escondidos ou reprimidos, tantas vidas acorrentadas por trás dos niqabs. De todas essas mulheres percebe-se apenas seus olhares expressando medo e esperança.”
A partir daí, somos apresentados a três histórias. A primeira é a de Sabiha, que ainda com 12 anos casou-se com um homem muito mais velho, num arranjo alheio a sua vontade. O matrimônio lhe apresentou as dores da restrição de liberdade e a violência doméstica que deixou-a paraplégica por se debruçar na janela sem niqab ao amanhecer, ferindo a honra do marido assim.
              A segunda história é protagonizada por Hammeda, uma empreendedora já de certa idade que desde muito jovem teve que virar para conseguir sustentar sua família sozinha, começando seus negócios dando abrigo e comida a soldados durante a guerra civil que o país enfrentou. Hoje, Hammeda é uma senhora respeitada como mulher e empreendedora, porém sua história traz o peso do preconceito e da hostilidade da comunidade local que enfrentou por muitos anos.  

A terceira e última história é a de Aisha, na qual conhecemos também Nabiha, Gada, e Sara e na qual a própria Agnes aparece como personagem. Nessa parte vemos as dificuldades que a jovem iemenita enfrenta: a pressão para começar a usar o niqab (caso de Aisha em particular), pressão para casar-se cedo, acesso restrito ao estudo, dificuldades para trabalhar em um ambiente em que a grande maioria é homem, enfrentar os olhares e preconceitos da sociedade mesmo usando o niqab, entre outros percalços.  
Vemos como o casamento é tido como a solução para o destino de garotas que são de família mais pobres, vez que não terão chance de estudar e que a família precisa garantir o sustento destas e se livrar do peso de uma boca a mais para alimentar. Com isso, os casamentos são arranjados muito cedo, por volta dos 11 anos da garota, que passa a ser de responsabilidade do marido e do qual seu destino irá depender.
Embora o descrito acima reforce um pouco a visão estereotipada que temos dos países muçulmanos, não se trata disso a HQ, pelo contrário. Acredito que tanto as fotos de Agnes quanto a HQ de Ugo tem o objetivo de humanizar as mulheres “sem rosto” e mostrar que debaixo do niqab tem um ser humano como qualquer outro que sofre pressões da sociedade, mas também que luta por seus objetivos e ideais. Os problemas enfrentados pelas mulheres iemenitas retratadas na obra podem nos causar certa aflição e aversão, mas devemos lembrar que aqui no ocidente nós (mulheres) também enfrentamos problemas de violência doméstica, preconceito e mesmo de arranjos de casamento de garotas muito novinhas também devido a pobreza.
Uma parte em especial que aborda que a liberdade e os problemas são uma questão de paradigma é o diálogo que Agnes tem com uma jovem arqueóloga, no qual a primeira esclarece que o uso do niqab não é um problema para as mulheres iemenitas, pelo contrário, este véu até proporciona certa liberdade com o “anonimato” e explica como. Outro momento desta conversa que é bastante interessante é quando Sara fala de liberdade feminina, fazendo um paralelo do uso do niqab com a rigidez dos padrões de beleza ocidentais, onde as mulheres tem que estar sempre a mostra e com uma aparência de acordo com o esperado.
Toda a densidade explorada pelos temas acima descritos é apresentada de forma simples e clara na HQ e pelas fotos de Agnes. O traço de Ugo lembra bastante o de Marjane Satrapi, em "Persépolis" o que é reforçado pelo fato desta HQ também ser toda em preto e branco e sua história se passar com mulheres e a Religião Islâmica ter grande peso.
Recomendo grandemente a HQ, que aborda temas tão densos de forma magistral. "O Mundo de Aisha" tem 144 páginas e é facilmente encontrado em livrarias online. 


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