29 de novembro de 2017

Senhor das Moscas

Senhor das Moscas é um livro escrito por William Golding e publicado originalmente em 1954. Apesar de não ter feito sucesso na época de seu lançamento (vendeu aproximadamente três mil exemplares), se tornou um clássico e ganhou várias adaptações para o cinema e para o teatro.
O enredo é relativamente simples, mas as nuances da história é que dão a complexidade capaz de intrigar o leitor e provocar reflexões sobre as situações vividas pelos personagens e especular sobre as alegorias acerca da natureza humana ali contidas.


A trama se passa no período da Primeira Guerra Mundial, motivo pelo qual, um avião cheio de crianças parte da Inglaterra com o intuito de levá-las para um lugar seguro durante este período conturbado. Ocorre que o avião cai em uma ilha deserta e entre os sobreviventes não há nenhum adulto. Ralph, um dos garotos, encontra uma concha do mar e ao soprar nela, emite um som que funciona como um chamado, fazendo com que os demais garotos que ouviram o som, fossem a seu encontro. A concha, então, passa a ser o símbolo da ordem, o instrumento capaz de convocar reuniões e cujo som juntou todos os garotos.
Desde este primeiro encontro, os meninos se vêem entre dois líderes: Ralph, o garoto que encontrou a concha e que passa uma imagem de confiança e responsabilidade; e Jack, garoto de postura mais imponente, uma imagem de força que se empenha em mostrar a importância de serem um grupo de caçadores e desbravadores da ilha.
O que começou como uma grande festa, sem adultos para estragar a diversão, começa a ficar complicado com o surgimento de boatos a respeito de um “bicho” que habitaria a ilha. Os meninos menores são os que dão origem a essa história e os mais aterrorizados pela ideia. O grupo de caçadores resolve fazer oferendas para o tal “bicho”, então toda vez que matam um porco, deixam a cabeça (espetada em uma estaca) para ele.
Com o clima de insegurança, os conflitos começam a se acalorar e as personalidades e arquétipos dos personagens começam a ficar ainda mais definidas. Ralph é obcecado com a fogueira, pois vê nela a grande chance de serem vistos, resgatados e, assim, voltarem para o mundo civilizado. Jack se empolga cada vez mais com a vida em sua fantasia de caçador e sobrevivente, deixando para trás os antigos códigos morais e condutas para criar seu novo mundo, onde os fracos não tem vez.
Neste meio, os outros garotos tomam seu lado e os acontecimentos seguintes encaminham os garotos para a perda de toda ordem e razão, levando-nos a reflexão central do livro: o ser humano, naturalmente, tende a selvageria na ausência de uma força ou ordem superior?

Há diversas interpretações para as alegorias presentes na história. Enquanto para alguns a crítica central é a fragilidade da civilização, para outros é a origem do mal. No livro, essa segunda hipótese é ainda mais chocante, vez que coloca todos os arquétipos em crianças, incluindo a razão, a fé e o próprio mal.
Sob essa segunda perspectiva, podemos ver até algumas referências bíblicas. Primeiro, na ilha onde os garotos ficam presos, cheia de arvores frutíferas, água potável, companhia e tudo mais que possibilitaria sua sobrevivência, um paraíso (como o Eden). Depois, há a quebra da única regra acordada entre os meninos, provocando um conflito. Então, os rumores começam a surgir, trazendo a ideia do “mal”. O próprio nome do livro faz referência ao Mal, já que “Senhor das Moscas” é como o “bicho” que aterroriza a ilha refere-se a si mesmo na conversa com um dos garotos. Este título pode ser encarado como uma referência ao chamariz de moscas que se torna a cabeça de porco oferecida ao “bicho”, mas também é uma alcunha de Belzebu, um demônio bíblico.
Recomendo muito a leitura deste livro para que você possa tirar suas próprias conclusões acerca da história e suas alegorias. Garanto que o livro é curtinho e provocativo o suficiente para proporcionar uma leitura rápida e intensa.
A minha edição é da editora Alfaguara. Tem uma capa brochura muito bonita, remetendo a ilha paradisíaca palco da história. As folhas são amareladas, de boa espessura e boa diagramação, melhorando ainda mais a experiência de leitura.
O livro tem uma boa adaptação para o cinema, feita em 1990 e dirigida por Harry Hook. Apesar de algumas diferenças pontuais, a trama e as reflexões apresentadas no filme são bem fieis a obra original. No entanto, recomendo que se você tiver interesse em ler o livro, veja o filme só após a leitura. Eu fiz o contrário e, inconscientemente, boicotei minha leitura por não querer encontrar certos pontos do desfecho.
Outra recomendação que tenho inspirada no livro é a música do Iron Maiden, do álbum The X Factor, “Lord of The Flies”. A música, gravada originalmente pela voz forte e marcante de Blaze Bayley, traz a atmosfera do livro, especialmente a visão do personagem Jack.


                                  Lord Of The Flies                                               Senhor Das Moscas                                                   
  
I don't care for this world anymore,                             Eu não me importo mais com esse mundo

I just want to live my own fantasy                                 Eu só quero viver minha própria fantasia

      Fate has brought us to these shores,                              O destino nos trouxe até aqui                       

what was meant to be is now happening                     O que estava para acontecer agora está acontecendo



I've found that I like this living in danger                     Eu percebi que gosto de viver a vida em perigo

Living on the edge it feels, it makes me feel as one    Vivendo ao extremo, nos faz sentir como o um só

Who cares now what's right or wrong, it's reality      Ninguém se importa com o que é certo ou errado, é a
                                                                                     realidade

Killing so we survive wherever we may roam              Matando conseguiremos sobreviver onde quer que nós
                                                                                        andemos


Wherever we may hide, we've got to get away          Onde quer que possamos nos esconder, temos que
                                                                                       escapar!


I don't want existence to end,                                       Eu não quero que a existência termine,

we must prepare ourselves for the elements             Temos que nos preparar para todas as possibilidades

I just want to feel like we're strong,                              Eu apenas quero sentir nossa força,

we don't need a code of morality                                 Não precisamos de um código moral

I like all the mixed emotion and anger                         Gosto dessa mistura de emoção e raiva

It brings out the animal, the power you can feel        Isso faz despertar o animal, a força que você sente

And feeling so high with this much adrenaline           E sentindo-se tão bem com tanta adrenalina

Excited but scary to believe what we've become       Empolgados, mas assustados, ao acreditar no que nos
                                                                                            tornamos


Saints and sinners, something willing us                      Santos e pecadores, algo nos chamando,

We are lord of the flies                                                   Somos os senhores das moscas

Saints and sinners, something within us                      Santos e pecadores, algo dentro de nós,

To be lord of the flies                                                      Somos os senhores das moscas

Saints and sinners, something within us                      Santos e pecadores, algo nos chamando,

To be lord of the flies                                                      A sermos os senhores das moscas





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8 de outubro de 2017

Outubro, Melhor Mês!


Outubro é um mês muito especial para todos os trevosinhos e fãs de ficção de horror e terror. Por causa do Halloween, os livros e filmes destes gêneros ficam em destaque e acontecem várias festas temáticas, então, é a época ideal para tirar as fantasias de monstros do armário e tentar aquelas maquiagens artísticas mais assustadoras.
            Em virtude do Halloween, também ocorrem vários projetos super legais em Outubro e, hoje, vou convidá-los para dois!

All Hallow's Read: Dê um livro assustador neste Halloween!

Este é um projeto criado por Neil Gaiman cujo intuito é propagar a leitura de terror através da troca ou doação de livros. O projeto foi abraçado pelo Pipoca Musical em 2015 e, desde então, a última semana de outubro traz a tradição de presentear amigos ou mesmo desconhecidos com livros assustadores e semear o hábito da leitura. Afinal, dando um livro a uma criança você estará fomentando o gosto pela leitura nela; dando um livro de terror a um amigo que gosta de ler você estará propiciando bons momentos para ele, e ainda, dando um livro a quem não tem o hábito da leitura, poderá instigar essa pessoa a ler mais. Só há benefícios! 
O melhor é que você não precisa, necessariamente, comprar livros para dar de presente nesta data, você pode mesmo dar os livros que você já leu e estão parados na sua estante, esperando a oportunidade de assustar outro leitor. 
            Na página do All Hallow's Read Brasil você encontrará mais informações sobre o projeto e, claro, boas dicas de livros para dar de presente e espalhar o terror por ai! 




Movie EveryDay In October – M.E.D.O

Quem acompanha o blog deve lembrar da maratona de filmes assustadores que rolou em outubro do ano passado. Ela fazia parte desse projeto incrível idealizado pelos canais Leitor97 e Livro Minuto.
Como o nome bem propõe, o objetivo é ver um filme por dia no mês de outubro, mas não quaisquer filmes. Os 31 filmes a serem vistos nessa maratona são ligados ao suspense, horror e terror. 
            No grupo do projeto no facebook tem a lista semanal dos filmes sugeridos e discussões sobre eles. Você não precisa ver os filmes da lista original, pode fazer adaptações conforme seu gosto e facilidade para achar os títulos, mas quanto mais filmes em comum virmos, melhor será a discussão. A lista dos filmes deste ano estão na foto abaixo e caso você queira saber mais, é só clicar no link do grupo do projeto.


          Então, estão todos mais que convidados a participar conosco destes projetos e espero contar com vocês para deixarmos o mês de outubro ainda mais especial. Tenho certeza que será uma experiência muito proveitosa!


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5 de outubro de 2017

O Inominável

O post de hoje é sobre o livro “O Inominável”, primeira obra do autor nacional Gustavo Lopes. O livro é curtinho, com cerca de 75 páginas, e tem uma escrita tão fluida que você lê em um piscar de olhos. 

A trama se passa com um grupo de adolescentes desajustados que estudam no mesmo colégio e compartilham outra coisa em comum: são vítimas de bullying. Eles costumam se reunir na biblioteca da escola, que além de ser o local onde acontece a monitoria da narradora-personagem, Thalita, ainda é um espaço de onde os valentões costumam manter distância.

As coisas começam a se agitar quando em uma das idas à biblioteca, eles acabam se deparando com um livro peculiar, entalhado meticulosamente e cuja capa parecia abrigar um corvo.

Sem dar muita importância ao livro inicialmente, os adolescentes resolvem seguir alguns passos nele descritos e começam a acreditar que ele pode ser um grande aliado para acabar com as situações que são submetido pelos bullies. A partir daí, o que parecia inacreditável passa a assombrar e rodear as mentes do grupo cada vez mais até o Inominável mostra a face.

O enredo é bem simples, mas a narrativa é muito bem fundada e traz uma atmosfera até meio Lovecrafteana, com personagens indo rumo ao desconhecido e encontrando algo cuja existência parecia impossível.

Um dos méritos do autor é a forma bem crível como ele construiu os personagens, com a impulsividade e visão limitada típica da adolescência, mas sem subestimar sua inteligência.

Outra coisa que gostaria de destacar aqui é o bom gosto do pai da narradora, que é viciado em música. Através deste personagem, em vários momentos do livro, o autor usa o recurso narrativo de colocar músicas que conversem com os acontecimentos da história, nos brindando com sua playlist que vai de AC/DC a Pink Floyd e Dream Theater.

Pra quem se interessou, o livro está disponível para ler online gratuitamente em duas plataformas: LuvBook e Wattpad. Espero que vocês também dêem uma chance ao livro e que gostem. Se vocês lerem, por favor, comentem aqui comigo o que acharam.
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15 de setembro de 2017

It - A Coisa (2017)

Estava tão ansiosa que fui ver na pré estreia a primeira parte da nova adaptação de IT - a Coisa, baseada no livro homônimo de Stephen King. Como gosto bastante do primeiro filme (1990) estava otimista, mas com um pé atrás com este novo filme, mas saí do cinema extremamente satisfeita e pretendo lhes contar o porquê neste post.


A história se passa na cidadezinha fictícia de Derry, no Maine, em 1989, quando crianças começam a desaparecer misteriosamente. A primeira criança a sumir é George Denbrough e esse acontecimento abala muito seu irmão mais velho, Bill, que não se conforma com seu desaparecimento, muito menos com a ideia de sua morte. 
A negação da morte de Georgie faz com que Bill apele pela ajuda dos amigos, o autonomeado "Clube dos Perdedores". 
Em respeito a Bill, o grupo de crianças desajustadas que, frequentemente, é alvo de bullying por suas peculiaridades, decide sair à procura de George nos esgotos da cidade. Lá, confirmam suas suspeitas de que há algo macabro envolvido no sumiço de George e que todos aqueles desaparecimentos, quase ignorados pelos adultos da cidade, realmente tinham uma conexão. O ponto de encontro de todas essas tragédias é Pennywise, uma criatura sinistra que assombra a cidade de Derry há séculos, incorporando os piores pesadelos infantis para se alimentar do pavor das crianças e, eventualmente, de seus corpos. 
Mesmo assustadas, especialmente devido ao contato que cada um dos sete amigos teve com a criatura, o “Clube dos Perdedores” vai à caça d’A Coisa para dar um fim aquela ameaça e tentar trazer de volta Georgie e a tranquilidade para a cidadezinha. 
O filme constrói bem o background das crianças, com seus traumas e lutas e mostra como aquela amizade é importante para a superação de seus medos. Assim, ele traz mais que um filme de terror convencional, mais que jumpscares cronometrados e um enredo fraco. Isso não quer dizer que o filme não tenha suas partes assustadoras e que não seja capaz de fazer o espectador saltar da cadeira algumas vezes. 
O que quero dizer, é que IT também é um filme sobre amizade e como ela pode resgatar alguém de uma vida triste e dar outro significado ao mundo. O filme traz diversos momentos de descontração, com piadas e tiradas que fazem você rir e te remetem bastante à atmosfera de filmes como Conta Comigo (1986), Goonies (1985) e (como não lembrar) Stranger Things (série de 2016), criando uma forte empatia do espectador com o grupo e com o senso de justiça e companheirismo necessários para aceitar aquele chamado para a aventura.
As atuações do elenco infantil são excelenes. Fiquei encantada por Sophia Lillis que interpreta Beverly Marsh e Finn Wolfhard está ótimo no papel de Ricchie, um garoto zoeiro e de língua afiada, bem diferente do contido Mike de Stranger Things. Ainda assim, meu favorito é Jack Dylan Grazer, intérprete do pequeno hipocondríaco Eddie Kaspbrak.


O que mais me preocupava nessa readaptação era como seria retratado e construído o vilão Pennywise, mas Bill Skarsgard entrega um "palhaço dançarino" assustador e que, ainda assim, consegue ser carismático. A cena na primeira sequência do filme, quando acontece o encontro com Georgie é sensacional, mostrando o palhaço o atraindo e fazendo piadas com o garoto e culminando no evento sangrento e sinistro que desencadeia o resto da trama. 
Não consigo lembrar de nada no filme que tenha me incomodado a ponto de ser um problema, mas se for para apontar pequenos deslizes, poderia falar de como não é dado o mesmo destaque a cada uma das crianças e da falta de desenvolvimento (e desfecho) para o personagem Henry Bowers, que tanto no livro como na primeira adaptação tem um papel importante na próxima parte da trama. 
De toda forma, gostei bastante do filme e os probleminhas que vi, não foram nem de longe capazes de mudar minha opinião sobre ele. Sendo uma readaptação, este filme poderia incorrer em diversos erros, mas é exatamente aí que tem seus méritos. É mais fiel ao livro em algumas partes e se distancia mais dele em outras, em comparação ao primeiro filme, mas tem um roteiro bem construído, que permite comparações tanto com a obra original de King quanto com o filme de 1980, sem causar perdas em sua própria identidade. 
A obra funciona muito bem, entregando um ótimo filme. Logo nos primeiros minutos de filme, você já se vê preso pela atmosfera de tensão criada pela trama e que vai oscilando durante o filme entre descontração, angústia, surpresa e medo. Toda essa construção agrada tanto aos fãs de jumpscares e sangue, quanto aos que procuram, acima de tudo, um roteiro e atmosferas bem construídos. 
Espero agora mais ansiosa pela segunda parte da história e recomendo bastante que vejam o filme.
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25 de julho de 2017

Carmilla

Este ano coloquei entre minhas metas de leitura ler obras que sempre quis ler e estão na minha fila há tempos, mas que até agora não li. Carmilla foi o primeiro da lista e só me animou a continuar firme com essa ideia.
Esta novela escrita pelo irlandês Sheridan Le Fanu já tinha sido recomendada várias vezes por amigos e apesar de já estar no meu Kindle há um tempo, nunca tinha tirado um momento para lê-la. Em março finalmente mudei isso.

A história é uma ficção gótica maravilhosa, porém bem simples. Narrada em primeira pessoa por uma jovem chamada Laura, que relembra os fatos e memórias do tempo em que passou na companhia da bela e misteriosa Carmilla. Começando com uma lembrança de seus 6 anos, quando acordou assustada e sozinha em seu quarto. 
Laura morava com o pai e alguns criados num castelo e, devido a distância do lugar a outras propriedades, não tinha a companhia frequente de amigas. Depois de ter frustrada sua expectativa de receber um velho amigo da família e desfrutar da companhia da filha que este traria, a jovem sai para um passeio com seu pai e durante este, testemunha um acidente com uma carruagem.
Apesar de não ter nenhuma vítima fatal, uma jovem que vinha na carruagem e que não gozava de uma saúde forte ficou bastante abalada, o que somado ao fato de que a viagem que faziam era de urgência, motivou a figura que dizia ser sua mãe a pedir que o dono do castelo, que oferecera ajuda, a hospedar a filha enquanto ela terminaria a viagem e resolveria os assuntos urgentes.
Por insistência de sua filha Laura, o dono do castelo consente em hospedar a jovem, que se apresenta como Carmilla. No momento em que encontram-se porém, há um choque pois Laura reconhece o rosto da outra como sendo o que lhe causara o susto na infância e Carmilla surpreende-a ao dizer que teve o mesmo sonho com o rosto de Laura. 
A partir de então as duas se tornam amigas e Carmilla demonstra uma imensa afeição a Laura, que contente com a amizade, ignora os estranhos hábitos da primeira, como levantar-se apenas no final da tarde, dormir de portas e janelas trancadas e comer muito pouco. 
"Funeral", ilustração de Michael Fitzgerald
As coisas começam a ficar estranhas quando duas coisas acontecem: a primeira é a entrega de um retrato da Condessa de Karstein, antepassada de Laura, que fora restaurado e cuja figura nele retratada apresenta grandes semelhanças com Carmilla.
O outro fato é começarem a ocorrer mortes de moças e mulheres na região do castelo. Primeiro associadas a uma epidemia de uma grave doença, mas depois atribuídas a coisas malignas, as mortes das jovens aconteciam após estas enfraquecerem aos poucos, terem alucinações e parecerem ter perdido sangue.
A certa altura, Laura cai doente e seu pai, disposto a levar a sério qualquer crendice para salvar a vida da filha toma algumas providências, que acabam por salvar Laura de um destino funesto.


O desfecho do conto fecha todas as pontas de forma bem feita e nos permite a constatação de que Sheridan Le Fanu nos presenteou com uma história muito interessante, apesar de simples e curta, que foi pioneira no uso de alguns elementos nas histórias de vampiros. Alguns deles são a figura da vampira (feminina), a vampira lésbica, o uso da sedução para atrair as vítimas e o vampiro como metamorfo, que assumia forma de animais.
Apesar de haverem várias outras similaridades nos enredos, só pelos elementos citados já podemos perceber o quanto "Carmilla" serviu de inspiração para Bram Stoker na criação de seu Drácula. Mas a sua importância não está só aí, o conto de Sheridan Le Fanu virou referência para muitos outros autores, sejam de livros ou de roteiros para cinema, e foi adaptado diversas vezes para o cinema e teatro.
Cena do filme The Vampire Lovers, retratando Carmilla e Laura

Super recomendo a leitura deste conto e espero que vocês não façam como eu e demorem tanto para conhecer esta belíssima obra. 

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24 de abril de 2017

Escuridão Total Sem Estrelas

Acabei de ler Ultra Carnem e já estava reflexiva sobre a podridão da humanidade, dominada pela ganância, egoísmo e outros sentimentos tão sórdidos quanto, aí ainda calhei de escolher como próxima leitura "Escuridão Total Sem Estrelas". Apesar de nenhum dos dois livros retratar histórias reais, me deixaram ainda mais desiludida com a humanidade.
"Escuridão Total Sem Estrelas" é uma coletânea de quatro contos (olha outra coincidência com Ultra Carnem) que têm em comum o fato de trazerem um terror extremamente real, mostrando que pessoas comuns podem ser capazes de monstruosidades se expostas a certas situações, comprovando que “all monsters are human”. 


O primeiro conto é 1922 e traz uma carta de confissão de Wilfred James, contando-nos detalhadamente como se deu a ruína de sua família, anteriormente composta por ele, sua esposa Arlette e o filho Henry.
Esta é uma história onde o egoísmo predomina e tudo começa porque Arlette, cansada da vida no campo, sonha em vender as terras que herdou do pai e ir para a cidade, porém Wilf abomina a ideia de trocar sua fazenda (que fora de seu pai anteriormente) para levar uma vida urbana, sentimento compartilhado pelo filho.
Motivado pelo egoísmo, Wif acaba deixando-se levar pelo "homem conivente" que habita em seu interior e elabora um plano para conseguir o que queria, porém o custo sai bem maior do que ele imaginou.

“Acredito que exista outro homem dentro de cada homem, um estranho, um Homem Conivente. E acredito que, em março de 1922, quando os céus do Condado de Hemingford estavam brancos, e cada campo estava coberto de Neve lamacenta, o Homem Conivente dentro do fazendeiro Wilfred James já tinha julgado minha esposa e decidido o seu destino.”

Depois da leitura possivelmente surgirá uma reflexão sobre até onde poderíamos ir para sobrepujar nossa vontade sobre os outros e como a maioria dos planos só é perfeito no terreno das ideias. Outra coisa legal desse conto é a referência à “Menina Má”.

O segundo conto é "O Gigante do Volante", protagonizado pela escritora de romance policial para a terceira idade, Tessa Jean. Após uma apresentação comum em uma cidade vizinha, Tess passa por uma experiência aterradora que quase lhe custou a vida. Talvez por ainda estar em choque pelo que houve ou talvez porque a experiência tenha lhe transformado em outra pessoa, ela acaba tomando providências bem diferentes das sugeridas pelo bom senso e sua antiga personalidade e vai de encontro a uma vingança elaborada.
"Porque, vamos encarar, algumas pessoas podem achar engraçado ver uma mulher destruída. Principalmente em uma noite de sexta-feira. Quem lhe bateu, moça, e o que você fez para merecer? Mudou de ideia, de repente, depois de um cara gastar o tempo dele com você?"
Neste conto vemos Tess ponderar tantas coisas acerca de sua decisão, coisas que as mulheres aprendem desde cedo e que pesam muito na vida delas. Reflexões acerca de culpabilização da vítima, de como admitir ser vítima de uma agressão ainda poderia acarretar um estigma e ainda mais sofrimento, de como o machismo ainda é forte em pequenas coisinhas do cotidiano. 


"Extensão Justa" é o próximo conto e é sobre um homem que num momento de grande dificuldade faz um acordo perigoso e sujo para conseguir sair daquele problema e às custas da ruína de alguém. Aqui, vemos o quanto a inveja, ambição e até ódio podem assumir rostos que julgamos amigos.
 O último conto é "Um Bom Casamento" e nos deixa com aquela sensação de que não conhecemos realmente ninguém. Que anos e anos de convivência, de hábitos reconhecíveis não são nada, que as pessoas podem esconder seu verdadeiro "eu" ou práticas/índoles macabras apenas com um pouco de esforço e organização. Nessa, Darcy Anderson descobre que seu marido, o pacato contador Bob Anderson, tem segredos que ela gostaria de ter morrido sem conhecer. 

"Dia após dia, os dois isolavam atrás de uma parede o que Bob era - sim, com tanta determinação quanto Montresor emparedara seu amigo Fortunato​ (...)."

Apesar de não ser uma história verídica, este conto é baseado na história real do Assassino em série BTK, cuja esposa não desconfiava de que o homem com quem dividira metade da vida era um assassino cruel.


"A insanidade dele era como um mar subterrâneo; havia uma camada de rocha sobre ela, e uma camada de terra sobre a rocha; e flores cresciam ali. Você poderia passear por aquele lugar sem nunca saber que as águas insanas estavam lá... Mas estavam."




Acho que é desnecessário fazer um parágrafo para enaltecer as habilidades de escrita de Stephen King, porém devo dizer que mesmo sendo um escritor conhecido pelas descrições e pelos grandes romances, King também consegue feitos incríveis com os contos. Aqui estão quatro deles para nos provar.
 A leitura é extremamente envolvente, os personagens são bem desenvolvidos e aprofundados, mesmo nas poucas páginas de cada conto, de forma que sabemos quais atitudes as personalidades de cada um seriam levados a tomar.
 As histórias nos chocam bastante, especialmente por trazerem situações que qualquer um de nós poderia enfrentar. Este é o “mérito” do livro. Mostrar como pessoas comuns reagiriam em situações extremas ou de suma importância. O que seríamos capazes de fazer ou enfrentar nessas circunstancias?

"As histórias neste livro são chocantes. Você pode ter achado difícil lê-las em alguns momentos. Se foi o caso, posso lhe assegurar que também achei difícil escrever as histórias em alguns momentos."


Apesar das histórias serem mais pesadas, a escrita e a forma como são narradas tornam tudo muito fluido e envolvente. Despertam nossa curiosidade ao mesmo tempo que nos chocam e surpreendem, proporcionando um verdadeiro mix de emoções por página.
A edição da Suma de Letras está lindíssima. Fazendo jus ao título, é toda preta, inclusive no corte, com apenas as letras da capa em um material mais brilhoso para ter certo destaque. Ela ainda traz um posfácio do próprio King falando um pouco de cada conto e de como surgiu a ideia para a concepção de cada um.
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23 de março de 2017

Ultra Carnem

O post de hoje é sobre um livro nacional, do autor Cesar Bravo. Desde quando vi as primeiras resenhas sobre esse livro já fiquei super interessada em adquiri-lo e não só pelo enredo e a escrita do autor. A arte do livro é lindíssima, com algumas ilustrações bem trevosas e símbolos como o signo de Lúcifer enfeitando seus interlúdios. Quando enfim consegui minha edição e a li pude comprovar que nada nele me decepcionou. Farei o possível agora para falar sobre a obra sem dar spoilers. 
O livro é dividido em quatro partes ou quatro contos (O Abandono, Gênesis, O pagamento e O inferno), todos explorando protagonistas incendiados por desejos mundanos, egoístas, mesquinhos e dispostos a ir muito longe para conseguir o que almejam, não se importando muito com ninguém além de si mesmos.
O primeiro conto é sobre Wladimir Lester, um garoto cigano e órfão que é amaldiçoado por sua tribo e deixado em um orfanato católico. Além do receio causado nos demais moradores do orfanato por sua origem cigana, o garoto chama a atenção por seu talento para a pintura e por seu apego a um tubinho peculiar de tinta vermelha ao qual trata com adoração. Essa primeira história será o fio condutor que irá ligar todos os contos do livro, sendo Wladimir Lester uma espécie de lenda urbana que paira sobre Três Rios, a cidade onde os contos se passam e responsável por apresentar o sobrenatural a pessoas medíocres e comuns.
O segundo conto se passa tempos depois o primeiro e é protagonizado por Nôa, um pintor obcecado pela história do garoto cigano e pelo desejo de achar a tal tinta misteriosa que Lester usava. Cego por esse desejo, Nôa não consegue produzir nada e, achando que a "tinta mágica" o tiraria do bloqueio criativo e da mediocridade, se lança numa busca desesperada pelo artefato, no entanto, o pintor encontra muito mais do que procurava. 
O terceiro conto é sobre um técnico de informática que levava uma vidinha medíocre a qual detestava e, como alguém que não lê as letras miúdas em um contrato, acaba fazendo um negócio muito além do que achava possível e pagando um preço considerável pelos benefícios conseguidos.
O quarto conto explica muitas coisas e já traz algumas amarras para pontas que ficaram soltas nos três primeiros. Ele é o único protagonizado por uma mulher, mas assim como as outras personagens femininas do livro, era bastante subjugada. Era. A garçonete Lucrécia passou por maus momentos sua vida inteira, mas essas cicatrizes físicas e psicológicas a tornaram tão destemida e obstinada que até o próprio Diabo se surpreenderia. Por isso mesmo, ela acaba sendo a escolhida pelo próprio "pata rachada" para procurar e escoltar ao inferno ninguém menos que Wladimir Lester, o garoto prodígio. 
O desfecho é bem eficaz em amarrar todas as pontas e nos leva para conhecer o inferno, literalmente. O Lúcifer aqui apresentado não é retratado com sua aparência caricata de um ser vermelho, com rabo, chifres e tridente. Essa peculiaridade não impressiona tanto, especialmente para os que já conhecem o Estrela da Manhã de Gaiman. Por outro lado, é bastante intrigante como o “Luci” de Bravo é assustadoramente humano, o que também pode significar que, de modo efetivo, nos dá um vislumbre de quão diabólica nossa raça é. Seu desejo de ganhar uma velha disputa é a força motriz que o leva a tomar suas decisões, a ambição, egoísmo e a vontade de se sobressair, de ser o mais forte é que motiva suas escolhas e tudo visando unicamente alcançar seu objetivo. Nada de diferente dos quatro humanos aqui apresentados, que colocam suas ambições e desejos pessoais acima de tudo e todos.
Acredito que este seja um ponto interessante dos protagonistas de “Ultra Carnem”. Nos livros ou filmes de terror, usualmente vemos um vilão corrompendo ou devastando os outros personagens, os mocinhos. Este não é o caso aqui. Neste livro, os personagens estão longe de serem mocinhos, embora possam ter tido alguns empurrõezinhos para chegarem onde chegaram.
O fato de o livro explorar um pouco do medo e do preconceito com ciganos e suas ‘maldições’ apesar de não ser novidade, achei bem eficiente. É terrível que ainda hoje permaneçam velhos conceitos e preconceitos, mas sabemos que os ciganos ainda são vistos como figuras misteriosas ou com certa desconfiança. No próprio livro há um debate no qual ligam tal preconceito a falta de compreensão e de conhecimento com seus costumes e, como já dizia Lovecraft, “O mais forte e mais antigo medo da humanidade é o medo do desconhecido”. 
O livro entrega um terror instigante, repleto de sangue, vísceras, luxúria, ambição e tudo de podre que a humanidade tem para oferecer. A escrita de Cesar Bravo é incrível e as descrições são viscerais tanto na exposição do sangue quanto dos conflitos internos dos personagens e conduz a narrativa de forma muito fluída e estimulante.
A edição caprichadíssima e capirotesca é, obviamente, da DarkSide Books. A capa preta traz um bode macabro entalhado num garfo sobre uma cruz em vermelho e não poderia captar melhor o espírito do livro. A edição tem capa dura, ilustrações trevosinhas (algumas vocês puderam ver aqui) e a nossa querida fitinha, mas o que devemos destacar aqui é a iniciativa da Caveirinha lançar autores nacionais e mostrar que também temos aqui grandes autores, que devem ser conhecidos e reconhecidos. César Bravo foi o primeiro, mas sei que o Alexandre Callari, autor de Apocalipse Zumbi, também faz parte do time da editora, então, vamos aguardar mais publicações dos autores de terror tupiniquins.
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