23 de março de 2017

Ultra Carnem

O post de hoje é sobre um livro nacional, do autor Cesar Bravo. Desde quando vi as primeiras resenhas sobre esse livro já fiquei super interessada em adquiri-lo e não só pelo enredo e a escrita do autor. A arte do livro é lindíssima, com algumas ilustrações bem trevosas e símbolos como o signo de Lúcifer enfeitando seus interlúdios. Quando enfim consegui minha edição e a li pude comprovar que nada nele me decepcionou. Farei o possível agora para falar sobre a obra sem dar spoilers. 
O livro é dividido em quatro partes ou quatro contos (O Abandono, Gênesis, O pagamento e O inferno), todos explorando protagonistas incendiados por desejos mundanos, egoístas, mesquinhos e dispostos a ir muito longe para conseguir o que almejam, não se importando muito com ninguém além de si mesmos.
O primeiro conto é sobre Wladimir Lester, um garoto cigano e órfão que é amaldiçoado por sua tribo e deixado em um orfanato católico. Além do receio causado nos demais moradores do orfanato por sua origem cigana, o garoto chama a atenção por seu talento para a pintura e por seu apego a um tubinho peculiar de tinta vermelha ao qual trata com adoração. Essa primeira história será o fio condutor que irá ligar todos os contos do livro, sendo Wladimir Lester uma espécie de lenda urbana que paira sobre Três Rios, a cidade onde os contos se passam e responsável por apresentar o sobrenatural a pessoas medíocres e comuns.
O segundo conto se passa tempos depois o primeiro e é protagonizado por Nôa, um pintor obcecado pela história do garoto cigano e pelo desejo de achar a tal tinta misteriosa que Lester usava. Cego por esse desejo, Nôa não consegue produzir nada e, achando que a "tinta mágica" o tiraria do bloqueio criativo e da mediocridade, se lança numa busca desesperada pelo artefato, no entanto, o pintor encontra muito mais do que procurava. 
O terceiro conto é sobre um técnico de informática que levava uma vidinha medíocre a qual detestava e, como alguém que não lê as letras miúdas em um contrato, acaba fazendo um negócio muito além do que achava possível e pagando um preço considerável pelos benefícios conseguidos.
O quarto conto explica muitas coisas e já traz algumas amarras para pontas que ficaram soltas nos três primeiros. Ele é o único protagonizado por uma mulher, mas assim como as outras personagens femininas do livro, era bastante subjugada. Era. A garçonete Lucrécia passou por maus momentos sua vida inteira, mas essas cicatrizes físicas e psicológicas a tornaram tão destemida e obstinada que até o próprio Diabo se surpreenderia. Por isso mesmo, ela acaba sendo a escolhida pelo próprio "pata rachada" para procurar e escoltar ao inferno ninguém menos que Wladimir Lester, o garoto prodígio. 
O desfecho é bem eficaz em amarrar todas as pontas e nos leva para conhecer o inferno, literalmente. O Lúcifer aqui apresentado não é retratado com sua aparência caricata de um ser vermelho, com rabo, chifres e tridente. Essa peculiaridade não impressiona tanto, especialmente para os que já conhecem o Estrela da Manhã de Gaiman. Por outro lado, é bastante intrigante como o “Luci” de Bravo é assustadoramente humano, o que também pode significar que, de modo efetivo, nos dá um vislumbre de quão diabólica nossa raça é. Seu desejo de ganhar uma velha disputa é a força motriz que o leva a tomar suas decisões, a ambição, egoísmo e a vontade de se sobressair, de ser o mais forte é que motiva suas escolhas e tudo visando unicamente alcançar seu objetivo. Nada de diferente dos quatro humanos aqui apresentados, que colocam suas ambições e desejos pessoais acima de tudo e todos.
Acredito que este seja um ponto interessante dos protagonistas de “Ultra Carnem”. Nos livros ou filmes de terror, usualmente vemos um vilão corrompendo ou devastando os outros personagens, os mocinhos. Este não é o caso aqui. Neste livro, os personagens estão longe de serem mocinhos, embora possam ter tido alguns empurrõezinhos para chegarem onde chegaram.
O fato de o livro explorar um pouco do medo e do preconceito com ciganos e suas ‘maldições’ apesar de não ser novidade, achei bem eficiente. É terrível que ainda hoje permaneçam velhos conceitos e preconceitos, mas sabemos que os ciganos ainda são vistos como figuras misteriosas ou com certa desconfiança. No próprio livro há um debate no qual ligam tal preconceito a falta de compreensão e de conhecimento com seus costumes e, como já dizia Lovecraft, “O mais forte e mais antigo medo da humanidade é o medo do desconhecido”. 
O livro entrega um terror instigante, repleto de sangue, vísceras, luxúria, ambição e tudo de podre que a humanidade tem para oferecer. A escrita de Cesar Bravo é incrível e as descrições são viscerais tanto na exposição do sangue quanto dos conflitos internos dos personagens e conduz a narrativa de forma muito fluída e estimulante.
A edição caprichadíssima e capirotesca é, obviamente, da DarkSide Books. A capa preta traz um bode macabro entalhado num garfo sobre uma cruz em vermelho e não poderia captar melhor o espírito do livro. A edição tem capa dura, ilustrações trevosinhas (algumas vocês puderam ver aqui) e a nossa querida fitinha, mas o que devemos destacar aqui é a iniciativa da Caveirinha lançar autores nacionais e mostrar que também temos aqui grandes autores, que devem ser conhecidos e reconhecidos. César Bravo foi o primeiro, mas sei que o Alexandre Callari, autor de Apocalipse Zumbi, também faz parte do time da editora, então, vamos aguardar mais publicações dos autores de terror tupiniquins.


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