10 de março de 2017

Confissões do Crematório


Gostaria de começar este post dizendo que “Confissões do Crematório” foi um dos melhores livros que li ano passado e está na lista dos que acho que todo mundo deveria ler. O teor do livro não é o mais alegre, divertido ou lúdico, mas é extremamente necessário, afinal, “este é um livro para quem pretende morrer um dia”. E sendo bem sinceros, pretendendo ou não... Todos nós morreremos. 

Também devo dizer que este é um livro de não-ficção, escrito por Caitlin Doughty, uma jovem inteligente e bem ‘strange and unusual’, que mesmo antes de entender bem o que era a morte, já tinha uma grande curiosidade a respeito dessa nossa única certeza.
O livro é narrado em primeira pessoa e descreve quando e até alguns dos motivos que levaram Caitlin a procurar emprego em um crematório. A morte, inevitável, comum, mas que ainda é um tabu para a nossa cultura não era algo que a repelia.
Assim, ela acaba conseguindo um emprego como operadora de forno no crematório Westwind Cremation & Burial, um grande crematório da Califórnia. A partir daí a autora nos leva por sua rotina de trabalho, que envolvia desde barbear defuntos, a ir buscar alguns em casa, preparar os corpos, conduzir corpos aos fornos cremadores e, depois, suas cinzas devidamente.
Acredito que essa curiosidade mórbida de saber o que acontece com os corpos desde quando são entregues a funerária até os recebermos de volta não é exclusividade de Caitlin, e, neste livro, ela nos revela isso. Isso e bem mais. Ela fala da indústria da morte, das pessoas e corporações que lucram com a morte e que, às vezes, até agem de maneiras não muito dignas para aumentar seus proventos, nos fazendo ver além da superfície.
Acompanhamos a vida e o amadurecimento da autora, desde quando conseguiu a vaga na Westwind, passando por sua decisão de se especializar como agente funerária, até depois de formada quando decidiu escrever o livro e falar do que a grande maioria evita até o último momento. Por trazer várias de suas lembranças e vivências, o livro é bem intimista, nos mostrando como a autora mesma teve suas ideias e pensamentos moldados com as visões e experiências que o emprego proporcionou e tornando Caitlin quase uma amiga ao longo da narrativa. 
 

Certamente, esta é uma obra que poderia muito bem se perder em divagações mórbidas acerca da morte, mas se destaca pelas reflexões filosóficas, pela riqueza de informações (tanto práticas como históricas) desde os procedimentos enfrentados por um corpo sem vida até suas representações e significados em diferentes culturas ao longo do tempo. Tudo isso com toques de humor (negro, na maioria das vezes porque, né?) e sarcasmo que tornam a leitura não só mais fluída como prazerosa, mesmo com o tema inusitado.
Este livro me proporcionou uma experiência de leitura incrível e fora do habitual. Não porque já sofri perdas muito íntimas ou porque temesse a morte ou a considerasse algo ‘distante’, mas porque me fez refletir sobre vários assuntos envolvidos em morrer, desde os práticos como a forma de sepultamento quanto as consequências disso para os vivos. 

Me surpreendi particularmente por ter o mesmo pensamento da autora quanto ao meu próprio enterro. Pode ser um pensamento meio mórbido, mas como a autora mesma diz: “nunca é cedo demais para pensar na morte”, afinal, estamos morrendo desde o dia que nascemos e começamos a respirar. 

❝ Como Gauguin, eu queria que animais devorassem meu corpo. Afinal, existe uma diferença mínima entre um corpo e uma carcaça. Eu era tão animal quanto as outras criaturas da floresta de sequoias. Um cervo não precisa de embalsamamento, de caixões fechados ou de lápides. Ele é livre para ficar no lugar em que morrer. Durante toda a minha vida, comi outros animais, e agora me ofereceria a eles. A natureza enfim, teria sua oportunidade comigo. 

Porém, outra coisa que o livro me ensinou é que o enterro não é para nós. Ou melhor, não é para o defunto. A cerimônia do enterro é para os familiares, amigos, entes queridos que, mesmo sabendo, em seu íntimo, que a pessoa não está mais ali, desejam se despedir.
“Confissões do Crematório” deixa bem claro o quanto nossa cultura prefere manter a morte ‘escondida’, mas cumpre habilmente o papel a que se propõe: tratar da morte com a naturalidade que ela deve ser tratada, sem tabus, sem medo de dizer o que todos nós sabemos, mas que preferimos evitar pensar. Assim, nos traz informações e proporciona reflexões sobre a vida e a morte, que podem ser verdadeiras lições na forma como encaramos nossa mortalidade.  

❝ Olhar diretamente nos olhos da mortalidade não é fácil. Para evitar isso, nós escolhemos continuar vendados, no escuro em relação às realidades da morte. No entanto, a ignorância não é uma benção — é só um tipo mais profundo de pavor.❞ 

A edição nacional do livro foi lançada pela DarkSide Books, e como tudo que tem o selo da editora, o trabalho de diagramação, corte (esse vermelho lindo) e mesmo o marcador (a carta da Morte no tarô) são lindíssimos. Além disso, o livro ainda tem a capa dura com detalhes de textura similar ao emborrachado, algumas ilustrações em seu interior e a já esperada fitinha para marcar páginas.









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