29 de novembro de 2016

Berenice, #12MesesDePoe

Apesar de ter publicado bastante aqui em Outubro, o post sobre o conto do mês para o #12MesesDePoe não saiu.  Em minha defesa, eu até li o conto em tempo e comecei a escrever, porém não consegui me focar para terminar o post e como o conto era o icônico Berenice, resolvi fazer sem pressa para não sair algo "de qualquer jeito".
Ilustração de Nelson Evergreen 

O conto narra em primeira pessoa a história de Egeu, um rapaz que não foi muito saudável durante a infância e literalmente, nasceu na biblioteca de sua casa. Por sua fragilidade física, o narrador era mais introspectivo e cultivava prazeres nas coisas do intelecto, especialmente na leitura. Na vida adulta, desenvolveu monomania, uma doença em que sua atenção era desviada por algo (poderia ser qualquer coisa, mesmo a mais simplória) e nela ele ficava absorto por um tempo considerável, como que em um transe.
Na mesma casa onde Egeu nasceu e cresceu, vivia sua prima, Berenice. Ao contrário dele, a jovem teve uma infância bem mais enérgica, na qual os passeios ao ar livre eram recorrentes, o que potencializava seu espírito vivaz.
No entanto, as coisas começam a mudar quando Berenice é acometida por uma estranha doença, que a deixa cada vez mais frágil, inclusive mudando sua aparência física. Motivado pela compaixão e não por amor, Egeu pede a prima em casamento, mesmo que a figura dela abalada pela doença lhe cause certo tremor. Se a aparência doente de Berenice lhe causa arrepios, pior é quando, ao acaso, Egeu vê os dentes dela em meio a um sorriso. Talvez pela dualidade de ser a única parte do corpo dela aparentemente inalterada pela doença ou pelo destaque que estes têm ao vislumbrar a imagem completa do que a prima se tornara, Egeu fica transtornado e passa a ficar obcecado e paranoico com seus dentes.
Este terror causado pelos dentes de Berenice no narrador é um dos principais pontos apontados por quem entende que ela é uma vampira. Outros pontos no conto também podem reforçar esta ideia, mas nada é claro quanto a isso. Muitas pessoas acreditam nisso tanto pelas partes no desenvolvimento do conto que podem deixar isso subentendido quanto pelo sentido que o final do conto passa a ter.
A parte dos leitores que não interpreta o conto como vampiresco, e na qual eu me incluo, atribui a doença de Berenice a ataques epiléticos e surtos de catalepsia, o que também pode ser reforçado durante a leitura.

❝ Diziam-me os amigos que, se eu
visitasse o túmulo da amiga, minhas preocupações seriam suavizadas.

Poe costumava usar uma parte do corpo de algum personagem como objeto de pavor/ obsessão de outro. Em Morella e n’O Coração Delator são os olhos, em Metzengerstein e em Hop Frog são os dentes que carregam uma aparência perturbadora/ odiosa. Aqui em Berenice, tem seu auge, quando o narrador se vê fixado neles, desencadeando um surto de sua monomania que culmina no final violento.
Tanto pelo teor do conto quanto pela violência contida nele, os leitores a época de sua publicação original ficaram horrorizados, o que motivou a remoção de quatro parágrafos do conto nas publicações posteriores. Como vi em comentários no grupo do projeto no Facebook, acho que é justo dizer que até hoje a maioria das edições não contém essas partes suprimidas. A minha é uma das que não contém. 
Mesmo apresentando elementos conhecidos como o personagem central atormentado, os objetos de obsessão já falados no parágrafo anterior e a figura feminina bela, mas frágil e moribunda, Berenice tem em suas peculiaridades o narrador cujo nome sabemos e a violência mais acentuada do que qualquer um dos outros contos lidos até agora para o #12MesesDePoe.


SPOILER >> Aos que ficaram curiosos para saber se leram a versão completa ou a editada, é só atentar para o momento em que Egeu visita Berenice antes de seu enterro. Os quatro parágrafos removidos são uma descrição deste momento, onde o protagonista percebe que a prima está viva. 





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