10 de setembro de 2016

O Coração Delator, #12MesesDePoe

Escrevi este post com ainda mais satisfação que o habitual pois o conto de agosto do #12MesesDePoe foi “O Coração Delator”, que é um dos meus contos favoritos de Poe. Este conto foi publicado pela primeira vez em 1843 e é daqueles que consegue envolver o leitor desde o início, causando estranheza e curiosidade para entender realmente o que se passa na cabeça do narrador.
A história é narrada por um homem que afirma veementemente que é são, no entanto, as perturbações que ele relata retiram muito da credibilidade dele. Não nos é dito seu nome ou quem ele é, ele apenas se descreve como um servo fiel de um senhor de idade avançada. Por isso, somos levados a crer que o narrador é um cuidador do idoso. Apesar disso e de dizer que nutre certo afeto pelo velho (que nunca lhe fez nenhum mal), o narrador diz que um dos olhos do idoso tem algo de demoníaco, e confessa que este lhe desperta sentimentos de repulsa e de perturbação cada vez mais difíceis de controlar.
 Decidido a por um fim nessa angústia, o homem resolve espreitar o velho no meio da noite, esperando confrontar seu “olho demoníaco”. Assim, durante várias noites ele abre delicadamente a porta do quarto do velho, a espreita, mas vendo que o idoso está dormindo e que a razão de seu tormento não está a mostra, vai embora. Até que um dia, por um descuido, o velho desperta e o fio da lanterna do narrador encontra o olho ‘terrível’ do senhor. Ao perceber que algo estava errado e não receber resposta, o idoso vai ficando cada vez mais nervoso e seu coração palpitando cada vez mais forte, ao ponto de ser ouvido pelo narrador, o que lhe dá o incentivo necessário para executar seus planos e destruir a causa de seu tormento. O desfecho do conto é bem interessante e não deixa dúvidas sobre a sanidade do narrador que a todo tempo tenta convencer o leitor que é um homem são, apenas bastante angustiado.
 O foco da narrativa são os terrores enfrentados pelo narrador, suas motivações e ações para acabar com o sofrimento causado pelo estranho olho de seu senhor, que pela descrição, provavelmente é um olho com catarata. Não são feitas descrições do velho, do próprio narrador ou mesmo da casa do velho, onde a história se passa, porém a descrição angustiante e o fato da maior parte dos acontecimentos ter ocorrido durante a noite já é o suficiente para trazer a atmosfera de suspense e angústia a mente do leitor.
 A história até nos lembra um pouco os contos “O Demônio da Perversidade” e “O Gato Preto”, tanto por querer achar uma justificativa externa para uma ação nefasta praticada quanto por evidenciar a loucura do narrador a medida que a narrativa avança, mesmo que este esteja plenamente convencido de sua sanidade. 
 Fazendo mais comparações, aqui vemos se repetir a aflição causada pelos olhos perturbadores de um personagem, assim como no conto "Morella". É como se Poe representasse através dos olhos desses personagens suas almas, que servem como catalizadores de sentimentos de forma tão profunda a ponto de despertar angústia e até insanidade em outrem.
 Apesar disso, tem características bem singulares também e a leitura é obrigatória para quem quer conhecer as obras de Allan Poe. A forma com que o narrador descreve sua história, conversando diretamente com o leitor e explicando suas angústias é bem interessante e funciona muito bem vez que mesmo que não consiga criar uma empatia verdadeira, conseguimos entender um pouco de seu infortúnio. Um dos grandes méritos de Edgar Allan Poe é justamente este, de nos trazer personagens atormentados por coisas banais e fazer com que o leitor realmente passe a crer que aquela simples coisa, objeto/animal ou situação pode mesmo desencadear a loucura em uma mente sã ou com predisposição a isso.




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2 comentários :