29 de agosto de 2016

A Cor Que Caiu do Espaço

Quando pensei em trazer uma série de posts relacionados a H.P. Lovecraft eu sabia que não conseguiria fazer muitos posts ou algo a altura do autor, porém não contava que o mês fosse ser tão corrido.  De qualquer modo, vou continuar os posts a medida que o tempo for surgindo e este hiato será quebrado com um dos contos mais famosos do autor: "A Cor Que Caiu do Espaço".  

O Conto também traduzido como “A cor que caiu do Céu” foi escrito por Howard Phillips Lovecraft e publicado em 1927. Este conto é considerado pelo autor um de seus favoritos dos que escreveu, apesar de, em suas palavras, ser “desprovido de concisão e clímax”. Ao ler a história podemos perceber o porquê de o conto tê-lo agradado tanto: Além da carga habitual de horror, a narrativa tem um forte toque de ficção científica, numa mistura muito harmônica dos dois gêneros.
A história é narrada por um homem cujo nome não é revelado. Ele é uma espécie de engenheiro que é enviado a Arkham (cidade destino de Robert Olmstead – A Sombra de Innsmouth) para medir o terreno onde seria construída uma nova represa. Ao visitar as colinas a oeste da cidade ele se depara com um lugar de “desolação cinzenta”, totalmente desprovido de vegetação, conhecido como “Descampado Maldito”. Curioso, o narrador procura saber mais a respeito do misterioso lugar através dos habitantes locais, mas não é bem sucedido. Isso até encontrar Ammi Pierce, um antigo morador da cidade que testemunhou os acontecidos ali. Aí começa a verdadeira história.
Ammi conta como o lugar antes havia sido uma produtiva fazenda e que era habitada por uma família até a queda de meteoro na propriedade. Este meteoro era como uma rocha, porém abrigava em seu núcleo algo que parecia ter vida, uma cor nunca antes vista. Ficamos sabendo mais a respeito dos infortúnios vividos pela família Gardner após a queda do tal meteorito, quando tudo perto do local da queda passou a apresentar uma estranha cor acinzentada e os animais e mesmo pessoas passaram a agir de forma estranha, chegando até a enlouquecer ou sumir sem deixar vestígios.
A narrativa é extremamente envolvente e o ar de ‘lenda’ dado a história funciona muito bem para criar a atmosfera de veracidade necessária para a imersão no enredo. Esse efeito é obtido pela sobreposição de narradores, vez que sabemos da história pelas palavras do forasteiro, que ouviu a história de outra pessoa, a qual, nem presenciou todos os fatos relatados, alguns lhe foram contados pelo patriarca Gardner.
 O excesso de descrição, característico de Lovecraft aqui tem um importante papel de detalhar a tal cor vinda do espaço. Lovecraft usa disso para explorar a imaginação do leitor e fazê-lo pensar além do óbvio ou clichê, criando uma atmosfera que transcende a ficção e nos faz continuar pensando “e se...”.  O mistério é vivo e bem desenvolvido, apesar de não abrigar dúvidas da presença de algo extraterrestre ali, a paisagem do ‘descampado maldito’ e a história da família Gardner deixam bem vivas as dúvidas da intensidade da influência deste elemento cromático desconhecido. Se por um lado a história poderia ser fruto de superstição provinciana pela queda do meteorito, por outro lado quem pode dizer com exatidão que nada mais havia ‘caído’ com o tal meteorito e motivado todos os males ali ocorridos?
            Outro mérito da narrativa é a inovação no que se diz respeito ao elemento extraterrestre, que aqui não apresenta aparência humanoide ou de seres cabeçudinhos e verdes e sim algo de formas indefinidas e abstratas, sendo descrito como uma aberração cromática não pertencente a este mundo.
By Rafa Garcia de la Mata
Tenho este conto em dois livros aqui em casa, porém, a edição que vou citar, mais uma vez, é a da Editora Hedra. O livro é em formato pocket, com folhas brancas e uma diagramação simples, porém merece destaque pelo material extra. A edição tem uma introdução bem interessante, com uma análise temporal do contexto em que o autor se encontrava quando escreveu o conto, incluindo alguns trechos de cartas escritas por ele, porém os verdadeiros petardos estão nos apêndices.
Lá encontramos três textos: Notas sobre uma não Entidade (1933), A Confissão de um Cético (1922) e Notas sobre Ficção Interplanetária (1934).
Os dois primeiros são relatos autobiográficos, o segundo com foco em seus pensamentos a respeito de como se percebeu um cético religioso, além de discorrer um pouco sobre seus interesses científicos e filosóficos.
Já “Notas sobre Ficção Interplanetária” é um texto crítico a respeito da abordagem das obras de ficção científica de seu tempo, atentando para o fato de que os autores costumavam se limitar muito no enfoque de suas histórias, mesmo este gênero sendo tão rico em possibilidades a serem exploradas. Neste quesito, “A Cor Que Caiu do Espaço” pode ser um belo exemplo de originalidade e inovação sugerido pelo texto em questão.

Minha edição - Editora Hedra
Recomendo bastante a leitura desta obra e, assim como “A Sombra de Innsmouth”, acredito que este conto irá agradar tanto aos fãs de Lovecraft quanto aos que ainda estão começando a explorar o Universo do autor.




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2 comentários :

  1. Respostas
    1. É um ótimo conto!
      Lovecraft escreveu muita coisa incrível.
      Você que é a Alana que escreveu o tcc sobre o mal nos contos do Lovecraft, né? Eu ainda não consegui terminar de ler, mas estou adorando! Parabéns!

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