23 de junho de 2016

Until Light Take Us

Se até hoje, mesmo entre os amantes de Heavy Metal, o Black Metal ainda é um gênero polêmico, imagine para os que vivenciaram o nascimento desse movimento, no fim da década de 80 e meados de 90, na Noruega.

Para compreender melhor o cenário em que este movimento de contracultura nasceu, mostrando as circunstâncias  de sua criação sem o sensacionalismo habitual, Aaron Aites e Audrey Ewell criaram o documentário “Until the Light Takes Us”.



Corpse paints, som agressivo e referências ao paganismo/anticristianismo, já chamariam atenção. Imagine, somado a isso, elementos como performances com automutilação, a foto do crânio estourado do então vocalista (Per Yngve “Dead” Ohlin) servindo de capa para o disco de uma banda, igrejas sendo queimadas e a morte de um dos principais integrantes da cena por outro membro.

A mídia não tardou a atribuir tais acontecimentos a seitas satânicas, muito embora a verdadeira essência do Black Metal norueguês fosse ainda mais obscura. Marcado pela misantropia, inconformidade com a destruição da cultura pagã nórdica pelo cristianismo e permeado pela homofobia e até um nacionalismo perigoso, o elemento chave que originou todo o movimento foi a música.

Until Light Take Us conta as origens desse gênero do Metal através de entrevistas com membros de bandas que ajudaram a moldar o estilo. Eles falam sobre as bandas que influenciaram a criação da sonoridade do Black Metal, onde as pessoas costumavam se encontrar pra ouvir música e discutir seus discos favoritos e como o gosto pelo som mais pesado evoluiu para vários outros aspectos.

Assim, acompanhamos o cotidiano de Gylve "Fenriz" Nagell em Oslo e sua visita a uma exposição de arte cujo tema e inspiração era o Black Metal Norueguês. Desde suas primeiras falas vemos alguém introspectivo, pacífico e misantropo, embora não tenha dificuldades em se expressar, especialmente sobre o momento em evidência no documentário. A banda de Fenriz (Darkthrone) foi a primeira a lançar um álbum de Black Metal, o icônico "A Blaze in the Northern Sky".*

O documentário foca-se mais nas entrevistas de Fenriz e de Varg "Count Grishnackh" Vikernes. Como Varg ainda estava preso na época em que o documentário foi produzido, as entrevistas e cenas com ele são de dentro da prisão de segurança máxima onde foi condenado a passar 21 anos. 

Dele, ouvimos várias histórias de assuntos desde a sua criação numa cidade pacata do interior da Noruega, suas influencias musicais até os fatos que culminaram no assassinato de Euronymous (guitarrista e fundador do Mayhem). Pela entrevista, percebemos como ele tem imenso carisma e jeito com as palavras. No entanto, não podemos deixar de notar também, a frieza e apatia do mesmo ao falar do episódio em matou o ex-companheiro de banda (o que alega ter feito em legítima defesa) e também evidenciada pela cena onde sorri ao ouvir a sentença por seu crime.
Varg Virkenes
No decorrer do documentário, vemos como Fenriz e Varg divergem em personalidade e opinião em diversos pontos, no entanto, é evidente que há grande respeito e admiração entre essas duas figuras emblemáticas do Black Metal Norueguês.

Além deles, o documentário conta com participações de outros membros de bandas importantes para o Black Metal, como Hellhammer (baterista e fundador do Mayhem), Frost (Satyricon), Abbath e Demonaz (Immortal), contando suas lembranças dos acontecimentos da época.
Frost - Satyricon
Until Light Take Us traz alguns fatos curiosos, como a introdução do Corpse Paint  nas apresentações de Black Metal trazida pelo segundo vocalista do Mayhem (o já citado “Dead”). Além disso, também aborda outros pioneirismos do gênero, como a gravação feita de maneira propositalmente precária (necro-music) preconizada por Varg e a criação dos riffs que se tornariam característicos do Black metal, por Euronymous.

A despeito do desejo de retratar o Black Metal Norueguês e os fatos obscuros que rondam seu nascimento de forma imparcial e despida do sensacionalismo comumente utilizado, há também reclamações.

Os produtores do documentário foram criticados por amenizar as polêmicas acerca do homem por trás do Burzum, não questionando suas ideias fascistas e racistas e até mesmo atribuindo ao título do documentário a tradução do nome de um álbum de sua banda ( Hvis lyset tar oss). Ainda assim, acho que podemos perceber a essência e a o tipo de pensamento que norteia Varg. 

De todo modo, acho que Until Light Take Us é uma ótima oportunidade de saber mais sobre esse gênero denso e, ainda, tão enevoado do Heavy Metal. Creio que explorar a origem e a essência do Black Metal Norueguês, com suas lendas e fatos marcantes, é uma experiência enriquecedora para qualquer headbanger, até mesmo aos que não são fãs do Black Metal.

Se você se interessou e quiser ver o documentário completo, ele está disponível no youtube, inclusive com legendas em português, como você pode ver abaixo.






*O disco "A Blaze in the Northern Sky" é considerado o primeiro disco "completo" lançado, mas antes dele houveram várias demos e compactos de bandas norueguesas de Black Metal, incluindo o lendário Live in Leipzig do Mayhem (com Dead no vocal).





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4 comentários :

  1. Opa, vou baixar! Eu curto muito documentários que relatam a origem de gêneros do rock, tem um de thrash metal (que eu esqueci o nome) que eu acho muito muito foda, fala do princípio do thrash, suas influências e seus influenciados. Gosto muito desse lance das pessoas que viveram o momento do gênero poderem falar como que realmente era viver aquilo! Documentários assim me transportam pra época, pro cenário, pro meio deles.

    P.s.: o Varg era tão bonitinho mais novo... hahahaaha
    Beijão, sua linda!

    www.vultuspersefone.blogspot.com

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    1. Também adoro documentários, quando é sobre algo que gosto, então... O doc sobre o Thrash metal que você falou é o Get Thrashed que é bem interessante também. Tô pensando em fazer outros posts sobre documentários ligados ao Metal, tem bastante coisa boa por aí.
      Varg realmente era uma lindeza! Hahaha
      Beijão e até mais, lindona!

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  2. O doc é bem interessante , eu tinha visto em algum lugar que tem um outro feito só com o Varg mas acho que era focado mais no assassinato , e tem um outro que eu achei no YT tb mostrando a cena black na bélgica , e atualmente parece que a cena black é mais forte nos países europeus do que nos escandinavos , tem muita coisa belga , francês , leste europeu , alemães . Nem sou tão fã assim de black mas o movimento me chama muito a atenção , principalmente pelo aspecto pagão e outras religiões/filosofias antigas . Aliás , é raro ver um blog não especializado abrir espaço para o black , bem legal isso

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    1. O documentário focado no assassinato do Euronymous é o Dunkelheit - The Story Of Varg Vikernes (tem um "outro" bem galhofa chamado "Dunkelheit: The Tale of Varg Virkenes"). Não conheço esse da Bélgica, obrigada pela dica, vou procurar!
      É verdade, hoje em dia a Europa, especialmente a Alemanha, é o principal expoente do Black Metal, tem muita coisa boa vindo de lá.
      Acho que o Black Metal é um subgênero especialmente interessante por ter tantos aspectos a serem considerados, já que tem bandas com temáticas que vão desde o anticristianismo ao o paganismo e filosofia, como você citou. Além disso tem o espírito "anti comercial" defendido por várias bandas que é um aspecto bem peculiar.
      Fico muito feliz que tenha gostado do post e espero conseguir escrever mais sobre Black Metal e outras vertentes do Metal em breve...
      Abraço e até mais!

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