3 de maio de 2016

Morella - #12MesesDePoe

Aqui estamos nós para mais um post do #12MesesDePoe! O conto de abril é Morella”, um dos mais curtos que leremos neste projeto, no entanto, cheio de significado e com uma dose bem equilibrada de romantismo e horror.
Morella por Abgail Larson (DeviantArt)
 A história é narrada em primeira pessoa por um homem cujo nome não nos é revelado. Ele explica como admira sua esposa, uma mulher inteligente e culta, mas revela também como nunca houve paixão ou mesmo amor. Vemos que ela passa seus dias debruçada em estudos filosóficos e místicos e tenta até repassar esses gostos intelectuais para o marido que fica um pouco assustado com o teor de suas investigações. Aos poucos, a admiração do narrador pela esposa passa a dar lugar por um certo sentimento de medo a medida que ela vai ficando mais enferma. 

Vendo o estado agravado da doença da mulher (que depois vemos se tratar de uma gravidez) ele passa a desejar a morte de Morella. Ele deseja isso tanto para que ela possa descansar em paz, quanto para se livrar de seus dedos frios e olhos melancólicos que começam a lhe causar perturbação. A morte dela acontece no momento do parto, mas antes de morrer ela profere algumas palavras que ficam gravadas na mente dele, como uma profecia:

Repito que estou morrendo. Mas dentro de mim há um penhor da afeição — ah, quão pequena! — que sentiste por mim, por Morella. E quando meu espírito partir, a criança viverá — tua criança, e minha, de Morella."

A criança que nasce é uma menina que passa a ser a vida do narrador, porém mesmo com o passar dos anos, a menina não recebe nome nenhum. Quanto mais velha fica, mais semelhanças a criança apresenta com a finada mãe, o que começa a incomodar seu pai que nem sequer pronunciava o nome da finada esposa. Essa semelhança, especialmente os olhos expressivos, passam a aterrorizar o narrador, de modo que este decide batizá-la, com o intuito de livrá-la de qualquer mal. 

O que acontece no momento do batismo em que o padre pergunta o nome da menina é que o narrador num impulso inconsciente diz “Morella”. Quando profere tais palavras, é como se tivesse trazido de volta a alma de sua esposa para a criança que grita “Estou aqui!” e morre. Ainda vimos o sofrimento do narrador ao levar o corpo da filha para o túmulo onde jazia a primeira Morella e lá não ver qualquer vestígio da esposa.

"Morella" é um conto muito bom e demonstra o quão sensível para retratar as obsessões e angústias humanas era Poe. O poder de Morella sobre os pensamentos do narrador em vida e mesmo após a morte, nos revela as nuances de uma mente perturbada.A confusão de sentimentos do narrador que passa de admiração para medo e até uma certa repulsa são descritos de forma que realmente despertam a empatia do leitor. 

Quanto aos elementos recorrentes nas obras de Poe, em "Morella" somos levados a crer que a filha é uma reencarnação da mãe ou que, ao menos, no momento do batismo há uma comunicação além-túmulo entre elas. Vimos um aspecto disso em "Metzengerstein",  lá apresentado como metempsicose. Além disso, encontramos pela primeira vez no #12MesesDePoe, algo bastante recorrente nos trabalhos do autor: a figura da mulher muito enferma ou morta. Além de ser visto como um toque do romantismo na sua literatura, frequentemente é associado a própria vida de Poe, que ficou órfão muito cedo e também acabou perdendo sua esposa e amor da sua vida precocemente. 

Em contrapartida, a presença da “segunda Morella" é algo bem singular. Não é nada comum na literatura de Poe a presença de crianças e aqui temos uma sendo retratada (a única de que me lembro). Mesmo não aparecendo com destaque, só sua presença já causa um forte impacto no contexto do conto.


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2 comentários :

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Thays! Arrasando nas resenhas como sempre! Muito conhecedora de Poe, que orgulho! Sua resenha vai lá pra página tá?
    Beijocas!

    Meu blog.

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