29 de setembro de 2015

Pesépolis

Talvez eu nem precise mais avisar que a HQ é autobiográfica, pela frequência desse gênero aqui, mas mesmo assim vou dizer que esta será mais uma! A HQ de hoje é de Marjani Satrapi e uma das coisas mais interessantes da obra é que ela traz como background a história de seu país natal, o Irã.

Nascida em Teerã e de uma família moderna, Marjani estudou em uma escola francesa onde tinha uma educação que valorizava a cultura e tradição persa, mas que atuava de forma harmônica com alguns valores da cultura ocidental também. Esse respeito as tradições e consideração ao Ocidente era um reflexo do país, na época.
Isso mudou depois de uma revolta popular que culminou na queda do Xá, que apoiava e tinha apoio do Ocidente e não concordava integralmente com os princípios islâmicos. O governo que assumiu era contrário à cultura do ocidente e tudo que fosse advindo dela não era mais bem vindo ou bem visto no Irã.
Marjane, então com 10 anos, viu seu país ser submetido a uma ditadura islâmica. Com isso, presenciou a escola se dividir entre meninos e meninas, além da volta do uso obrigatório do véu e a prisão ou 'sumiço' de quem fosse contra ao governo totalitário.

A HQ nos mostra, então, a mudança que houve no Irã, onde universidades foram fechadas, mulheres que pintavam as unhas eram repreendidas e festas eram muito mal vistas, acabando muitas vezes, com a prisão de quem lá estava. Bandas ocidentais não tinham cd’s vendidos livremente, entre várias outras coisas ‘simples’ que tinham que ser banidas dos hábitos dos iranianos. Isso até rende algumas aventuras à Marjani que tinha que se aventurar no ‘mercado negro’ para comprar discos de suas bandas preferidas.


Ela era uma criança muito esperta e inteligente, nascida de uma família com pensamento politizado, bem diferente da onda conservadora que abatia o país. Por essa criação e tendo vivido tempos diferentes, essa restrição das liberdades individuais era tida como inaceitável por Marjane. Ela foi se tornando uma jovem rebelde e vemos algumas de suas aventuras em tentar viver uma vida ‘normal’ num ambiente bem hostil para mulheres, especialmente as que não assimilavam bem a moral islâmica. Essas situações nos rendem constantes momentos de tensão imaginando quais seriam os castigos que poderiam lhe ocorrer se fosse pega.

Para resguardá-la disso, quando a guerra (Irã-Israel) estourou, seus pais decidiram mandá-la para a Áustria, onde poderia continuar seus estudos longe do ambiente hostil. Ainda assim, ela teve contato com a guerra vendo amigos da família e até alguns familiares sendo presos ou mesmo mortos pelo rígido governo.
Nessa época, com seus 14 anos, Marjane passa por diversas mudanças e experiências que vão de mudanças corporais (crescimento) a morar de aluguel, conhecer correntes como a Anarquia e os primeiros relacionamentos. Apesar das belezas que essa época de mudança de paradigmas traz, o sentimento de solidão também surge por estar num país estranho, sem os amigos e a família. Longe de sua cultura e vendo como são as coisas em outros países, ela se afasta cada vez mais de suas raízes culturais que são repressivas.

Vemos as dificuldades de adaptação dela, como estrangeira, a solidão e confusão que sentia, um período bem conturbado de sua vida que culmina com sua volta para Teerã. 
De volta a seu país, com mais idade e maturidade, enfrenta novos choques culturais, como casamento e separação num país conservador, onde casais nem podem andar de mãos dadas. Sabendo que não se acostumaria a viver conforme o regime que regia seu país, Marjane decide ir para a França estudar Belas Artes e lá reside até os dias atuais.
A HQ é toda em preto e branco e acompanha Marjane da infância até a vida adulta. Tem traços bem simples que aliados ao texto eficaz da autora, nos mostra muito mais que sua vida e suas experiências, é uma verdadeira aula de história, nos fazendo conhecer o Irã além dos estereótipos que vemos nos noticiários e mídias, em geral. Apesar da história densa e do clima tenso, há muito de ironia e de humor na narrativa, especialmente nos fatos de sua infância.

Aqui no Brasil, Pesépolis foi publicado pela Editora Companhia das Letras. A história é dividida em quatro volumes que podem ser adquiridos separadamente ou em um único volume. Tanto o volume único quanto os outros podem ser facilmente encontrados em lojas físicas e virtuais por um preço bem digno, aproximadamente R$ 35,00.
É importante dizer também que essa HQ foi tão aclamada que posteriormente rendeu um filme dirigido pela própria Marjane e Vincent Paronnaud. O longa é uma animação e foi até indicado ao Oscar em 2007. Vale realmente a pena ver, especialmente se você não pode adquirir a HQ agora e não gosta de ler online. O filme (logicamente) tem o mesmo nome da HQ e é bem fácil de achar na internet. 

Ficam ai mais que indicados os dois! 



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4 comentários :

  1. Olha, que bacana, não sabia que tinha HQ dessa história também! ^^
    Vi o resumo do filme em um outro blog hoje e achei bem interessante, e agora vendo seu review da HQ fiquei querendo ainda mais ver o filme e, agora, ler a HQ. ^^
    Adorei saber!
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Tem sim, Mone!
      Recomendo a HQ, e você acha fácil o filme pra baixar, assista mesmo que vale a pena!
      Muita história e com sensibilidade e humor enormes!
      Beijo e até mais! ^^

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  2. Caraca, que post foda!!!
    Lembrei de vc outro dia, Thays: tivemos um mini evento aqui falando de HQs, e contando sobre várias histórias brasileiras. Vou te recomendar uma bem legal: http://quadrinhofilia.com.br/projetos/vigormortiscomics/
    Quero ver mais histórias interessantes com esta HQ. Até vou recomendar a um amigo meu.
    Beijos!

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Vivien!
      Vou dar uma olhada nisso sim, obrigada pela dica!
      Eu tenho uma HQ que fala da Batalha do Jenipapo, conflito muito relevante pra história do Piauí...
      Acho que essas iniciativas podem ser bem legais pra dispersar o interesse de mais pessos para a história do nosso país.
      Beijo e até mais! =**

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