23 de março de 2017

Ultra Carnem

O post de hoje é sobre um livro nacional, do autor Cesar Bravo. Desde quando vi as primeiras resenhas sobre esse livro já fiquei super interessada em adquiri-lo e não só pelo enredo e a escrita do autor. A arte do livro é lindíssima, com algumas ilustrações bem trevosas e símbolos como o signo de Lúcifer enfeitando seus interlúdios. Quando enfim consegui minha edição e a li pude comprovar que nada nele me decepcionou. Farei o possível agora para falar sobre a obra sem dar spoilers. 
O livro é dividido em quatro partes ou quatro contos (O Abandono, Gênesis, O pagamento e O inferno), todos explorando protagonistas incendiados por desejos mundanos, egoístas, mesquinhos e dispostos a ir muito longe para conseguir o que almejam, não se importando muito com ninguém além de si mesmos.
O primeiro conto é sobre Wladimir Lester, um garoto cigano e órfão que é amaldiçoado por sua tribo e deixado em um orfanato católico. Além do receio causado nos demais moradores do orfanato por sua origem cigana, o garoto chama a atenção por seu talento para a pintura e por seu apego a um tubinho peculiar de tinta vermelha ao qual trata com adoração. Essa primeira história será o fio condutor que irá ligar todos os contos do livro, sendo Wladimir Lester uma espécie de lenda urbana que paira sobre Três Rios, a cidade onde os contos se passam e responsável por apresentar o sobrenatural a pessoas medíocres e comuns.
O segundo conto se passa tempos depois o primeiro e é protagonizado por Nôa, um pintor obcecado pela história do garoto cigano e pelo desejo de achar a tal tinta misteriosa que Lester usava. Cego por esse desejo, Nôa não consegue produzir nada e achando que a "tinta mágica" o tiraria do bloqueio criativo e da mediocridade se lança numa busca desesperada pelo artefato, no entanto, o pintor encontra muito mais do que procurava. 
O terceiro conto é sobre um técnico de informática que levava uma vidinha medíocre a qual detestava e, como alguém que não lê as letras miúdas em um contrato, acaba fazendo um negócio muito além do que achava possível e pagando um preço considerável pelos benefícios conseguidos.
O quarto conto explica muitas coisas e já traz algumas amarras para pontas que ficaram soltas nos três primeiros. Ele é o único protagonizado por uma mulher, mas assim como as outras personagens femininas do livro, era bastante subjugada. Era. A garçonete Lucrécia passou por maus momentos sua vida inteira, mas essas cicatrizes físicas e psicológicas a tornaram tão destemida e obstinada que até o próprio Diabo se surpreenderia. Por isso mesmo, ela acaba sendo a escolhida pelo próprio "pata rachada" para procurar e escoltar ao inferno ninguém menos que Wladimir Lester, o garoto prodígio. 
O desfecho é bem eficiente em amarrar todas as pontas e nos leva para conhecer o inferno, literalmente. O Lúcifer aqui apresentado não é retratado com sua aparência caricata de um ser vermelho, com rabo, chifres e tridente. Essa peculiaridade não impressiona tanto, especialmente para os que já conhecem o Estrela da Manhã de Gaiman. Por outro lado, é bastante interessante como o “Luci” de Bravo é assustadoramente humano, o que também pode significar que de modo bem eficiente nos dá um vislumbre de quão diabólica nossa raça é. Seu desejo de ganhar uma velha disputa é a força motriz que o leva a tomar suas decisões, a ambição, egoísmo e a vontade de se sobressair, de ser o mais forte é que motiva suas escolhas e tudo visando unicamente alcançar seu objetivo. Nada de diferente dos quatro humanos aqui apresentados, que colocam suas ambições e desejos pessoais acima de tudo e todos.
Acredito que este seja um ponto interessante dos protagonistas de “Ultra Carnem”. Nos livros ou filmes de terror, usualmente vemos um vilão corrompendo ou devastando os outros personagens, os mocinhos. Este não é o caso aqui. Neste livro, os personagens estão longe de serem mocinhos, embora possam ter tido alguns empurrõezinhos para chegarem onde chegaram.
O fato de o livro explorar um pouco do medo e do preconceito com ciganos e suas ‘maldições’ apesar de não ser novidade, achei bem eficiente. É terrível que ainda hoje permaneçam velhos conceitos e preconceitos, mas sabemos que os ciganos ainda são vistos como figuras misteriosas ou com certa desconfiança. No próprio livro há um debate no qual ligam tal preconceito a falta de compreensão e de conhecimento com seus costumes e, como já dizia Lovecraft, “O mais forte e mais antigo medo da humanidade é o medo do desconhecido”. 
O livro entrega um terror instigante, repleto de sangue, vísceras, luxúria, ambição e tudo de podre que a humanidade tem para oferecer. A escrita de Cesar Bravo é incrível e as descrições são viscerais tanto na exposição do sangue quanto dos conflitos internos dos personagens e conduz a narrativa de forma muito fluída e estimulante.
A edição caprichadíssima e capirotesca é, obviamente, da DarkSide Books. A capa preta traz um bode macabro entalhado num garfo sobre uma cruz em vermelho e não poderia captar melhor o espírito do livro. A edição tem capa dura, ilustrações trevosinhas (algumas vocês puderam ver aqui) e a nossa querida fitinha, mas o que devemos destacar aqui é a iniciativa da Caveirinha lançar autores nacionais e mostrar que também temos aqui grandes autores, que devem ser conhecidos e reconhecidos. César Bravo foi o primeiro, mas sei que o Alexandre Callari, autor de Apocalipse Zumbi, também faz parte do time da editora, então, vamos aguardar mais publicações dos autores de terror tupiniquins.
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10 de março de 2017

Confissões do Crematório


Gostaria de começar este post dizendo que “Confissões do Crematório” foi um dos melhores livros que li ano passado e está na lista dos que acho que todo mundo deveria ler. O teor do livro não é o mais alegre, divertido ou lúdico, mas é extremamente necessário, afinal, “este é um livro para quem pretende morrer um dia”. E sendo bem sinceros, pretendendo ou não... Todos nós morreremos. 

Também devo dizer que este é um livro de não-ficção, escrito por Caitlin Doughty, uma jovem inteligente e bem ‘strange and unusual’, que mesmo antes de entender bem o que era a morte, já tinha uma grande curiosidade a respeito dessa nossa única certeza.
O livro é narrado em primeira pessoa e descreve quando e até alguns dos motivos que levaram Caitlin a procurar emprego em um crematório. A morte, inevitável, comum, mas que ainda é um tabu para a nossa cultura não era algo que a repelia.
Assim, ela acaba conseguindo um emprego como operadora de forno no crematório Westwind Cremation & Burial, um grande crematório da Califórnia. A partir daí a autora nos leva por sua rotina de trabalho, que envolvia desde barbear defuntos, a ir buscar alguns em casa, preparar os corpos, conduzir corpos aos fornos cremadores e, depois, suas cinzas devidamente.
Acredito que essa curiosidade mórbida de saber o que acontece com os corpos desde quando são entregues a funerária até os recebermos de volta não é exclusividade de Caitlin, e, neste livro, ela nos revela isso. Isso e bem mais. Ela fala da indústria da morte, das pessoas e corporações que lucram com a morte e que, às vezes, até agem de maneiras não muito dignas para aumentar seus proventos, nos fazendo ver além da superfície.
Acompanhamos a vida e o amadurecimento da autora, desde quando conseguiu a vaga na Westwind, passando por sua decisão de se especializar como agente funerária, até depois de formada quando decidiu escrever o livro e falar do que a grande maioria evita até o último momento. Por trazer várias de suas lembranças e vivências, o livro é bem intimista, nos mostrando como a autora mesma teve suas ideias e pensamentos moldados com as visões e experiências que o emprego proporcionou e tornando Caitlin quase uma amiga ao longo da narrativa. 
 

Certamente, esta é uma obra que poderia muito bem se perder em divagações mórbidas acerca da morte, mas se destaca pelas reflexões filosóficas, pela riqueza de informações (tanto práticas como históricas) desde os procedimentos enfrentados por um corpo sem vida até suas representações e significados em diferentes culturas ao longo do tempo. Tudo isso com toques de humor (negro, na maioria das vezes porque, né?) e sarcasmo que tornam a leitura não só mais fluída como prazerosa, mesmo com o tema inusitado.
Este livro me proporcionou uma experiência de leitura incrível e fora do habitual. Não porque já sofri perdas muito íntimas ou porque temesse a morte ou a considerasse algo ‘distante’, mas porque me fez refletir sobre vários assuntos envolvidos em morrer, desde os práticos como a forma de sepultamento quanto as consequências disso para os vivos. 

Me surpreendi particularmente por ter o mesmo pensamento da autora quanto ao meu próprio enterro. Pode ser um pensamento meio mórbido, mas como a autora mesma diz: “nunca é cedo demais para pensar na morte”, afinal, estamos morrendo desde o dia que nascemos e começamos a respirar. 

❝ Como Gauguin, eu queria que animais devorassem meu corpo. Afinal, existe uma diferença mínima entre um corpo e uma carcaça. Eu era tão animal quanto as outras criaturas da floresta de sequoias. Um cervo não precisa de embalsamamento, de caixões fechados ou de lápides. Ele é livre para ficar no lugar em que morrer. Durante toda a minha vida, comi outros animais, e agora me ofereceria a eles. A natureza enfim, teria sua oportunidade comigo. 

Porém, outra coisa que o livro me ensinou é que o enterro não é para nós. Ou melhor, não é para o defunto. A cerimônia do enterro é para os familiares, amigos, entes queridos que, mesmo sabendo, em seu íntimo, que a pessoa não está mais ali, desejam se despedir.
“Confissões do Crematório” deixa bem claro o quanto nossa cultura prefere manter a morte ‘escondida’, mas cumpre habilmente o papel a que se propõe: tratar da morte com a naturalidade que ela deve ser tratada, sem tabus, sem medo de dizer o que todos nós sabemos, mas que preferimos evitar pensar. Assim, nos traz informações e proporciona reflexões sobre a vida e a morte, que podem ser verdadeiras lições na forma como encaramos nossa mortalidade.  

❝ Olhar diretamente nos olhos da mortalidade não é fácil. Para evitar isso, nós escolhemos continuar vendados, no escuro em relação às realidades da morte. No entanto, a ignorância não é uma benção — é só um tipo mais profundo de pavor.❞ 

A edição nacional do livro foi lançada pela DarkSide Books, e como tudo que tem o selo da editora, o trabalho de diagramação, corte (esse vermelho lindo) e mesmo o marcador (a carta da Morte no tarô) são lindíssimos. Além disso, o livro ainda tem a capa dura com detalhes de textura similar ao emborrachado, algumas ilustrações em seu interior e a já esperada fitinha para marcar páginas.







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31 de dezembro de 2016

O Retrato Oval - #12MesesDePoe

O Conto de Dezembro e o último desta primeira parte do #12MesesDePoe é “O Retrato Oval”, publicado em 1842 e cuja ambientação, tal qual Metzengerstein, é um antigo castelo.



O enredo conta a história de um jovem que é obrigado por seu estado de saúde a passar a noite em um antigo castelo medieval, apenas na companhia de seu servo.

No interior do lugar, o jovem fica impressionado com a decoração que apesar de velha, era bem rica. No cômodo que elegeram para dormir, o jovem não pôde deixar de notar a quantidade e qualidade das obras de arte que enfeitavam suas paredes e, após algum tempo, encontra um pequeno caderno contendo a história dos quadros.

Já prestes a dormir, ele percebe um quadro magnífico de uma bela mulher, dona de olhos bem vívidos e cercado com uma moldura oval. Curioso, o jovem decide procurar a história do quadro no caderninho e não tarda a encontrar e a nos narrar.

Eis que muitos anos antes, o castelo era habitado por um pintor e sua esposa. O casal era muito apaixonado, porém o pintor também cultivava grande paixão pela arte e a obsessão do pintor com suas obras causava muito ciúmes na jovem esposa.

Por ser bastante submissa e também por pensar que conseguiria mais atenção do esposo, a linda jovem aceita servir de modelo para um de seus quadros.

Animado com a ideia de produzir o que poderia ser sua obra-prima, o pintor acha num local do castelo cujo teto possuía uma brecha a iluminação perfeita para começar a pintar o retrato da esposa.

Sempre amável e complacente, a jovem não reclama das horas a fio que passava posando para a pintura. Seu marido, extremamente perfeccionista, gastou meses para tentar captar a beleza da esposa no quadro e, com isso, mal notava que a mesma começa a definhar diante dele, vez que a brecha responsável por pela iluminação ideal para o quadro, também trazia ventos gélidos que findaram por adoecer sua modelo amada.

Quando finalmente terminou o quadro para o qual empreendera tanto afinco e dedicação, ficou surpreso ao ver o quanto a obra parecia vívida e mais ainda ao olhar para onde estava a esposa e ver que sua modelo jazia imóvel no chão, morta.

Apesar de diferente dos outros contos que lemos para o projeto, “O Retrato Oval” traz dois velhos conhecidos: o narrador sem nome  e o protagonista obcecado. A preocupação e perfeccionismo com seu trabalho era tanta, que o desfocou daquela que devia ser seu maior tesouro: a vida de sua amada.    

Edgar Allan Poe foi um autor fora do comum, mas que usou muito do comum, do banal para aterrorizar personagens e leitores em suas histórias, sejam contos ou poemas. É inegável que seu legado perdura e assim o fará por muito tempo, reafirmando a qualidade de tudo o que foi produzido por ele e é uma honra participar de um projeto cujo intuito é disseminar mais ainda suas obras.

             Este é o último conto de 2016 para o 12 Meses de Poe, mas o projeto segue firme e forte, tendo sua segunda fase em 2017, quando além de um conto por mês, também leremos um poema do autor. Fiquei extremamente satisfeita em saber tanto da continuação, quanto do 'upgrade' que o projeto terá. Espero conseguir fazer parte dele mais um ano e trazer os resumos e impressões a cada mês. 

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13 de dezembro de 2016

Bad Nossa de Cada Dia

          Depois do mês extremamente produtivo (pra os meus padrões, pelo menos) que foi outubro, novembro veio se arrastando e dezembro ainda mais. Trouxe um misto de cansaço do ano inteiro, responsabilidades das quais eu já gostaria de ter largado, mas ainda me perseguem, e outras pequenas coisinhas que somadas, estão me empurrando para a bad de uma forma impressionante.



Houveram uns dias mais tensos, que não conseguia nem ler, mas no geral, estou conseguindo levar, o que já é algo bom. Estou tentando pensar assim.
O fim do ano traz aquela necessidade de descanso, de dar um tempo da correria e se recuperar do cansaço acumulado ao longo do tempo. Talvez a bad, dessa vez, seja um aviso do corpo dizendo pra parar um tempo.
              Vou tentando fazer isso. Descansar mais, correr menos, não me deixar levar pelo estresse das coisas cotidianas e seguir. 
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30 de novembro de 2016

Ligéia - #12MesesDePoe

O penúltimo conto do #12MesesDePoe é “Ligéia”, publicado pela primeira vez em 1838. Este conto é bem icônico e aqui no post, como o habitual, farei um resumo dele, mas COM SPOILERS, então, se ainda não leu o conto e se incomoda com spoilers, melhor parar por aqui. 

Ilustração de Abigail Larson


Somos conduzidos pela história, mais uma vez, por um narrador sem nome, que, apesar de não conseguir lembra-se de como conheceu sua esposa ou seu sobrenome, nos fala dela com grande devoção. Ligéia era o nome de sua linda e inteligente esposa, cujos cabelos eram encaracolados e negros como um corvo. Apesar de descrever sua aparência e ressaltar sua beleza, o narrador fala que esta é meio exótica também, bem como seus olhos negros e profundos.

Sua esposa era também sua condutora nos estudos metafísicos que faziam, motivo a mais pelo qual o narrador era impressionado com a inteligência acima do comum de sua esposa. 

Eis que sua amada é acometida por uma doença e acaba morrendo. Em seu leito de morte, ela pede que o marido leia um poema que ela escreveu a respeito da morte e cita Joseph Glanvill em suas últimas palavras: 

 O homem não se entrega aos anjos, nem se submete à morte, senão pela fraqueza de sua débil vontade.

Algum tempo depois, o narrador muda de país, a fim de deixar a lembrança de Ligéia e parte para a Inglaterra. Lá, se casa com Lady Rowena de Tremaine, cujas feições são totalmente opostas a de Ligéia: cabelos bem loiros e de olhos bem azuis.

Após o casamento, a segunda esposa passa o tempo todo no quarto nupcial, que é lindamente decorado, incluindo tapeçarias de ouro, porém, logo ela também começa a ficar doente, e, em sua doença, fica extremamente assustada com as tapeçarias do cômodo, das quais tem a impressão de estarem vivas.

Mesmo após algumas melhoras, Rowena morre. O narrador fica com o corpo durante a noite, mas devido ao seu vício em ópio fica meio alheio ao ambiente, até que nota que a vida parece estar voltando ao corpo da esposa. Antes que possa fazer algo, Rowena jaz imóvel de novo. Outra vez o corpo volta a ganhar aspecto vívido e, desta vez, levanta-se e caminha pelo quarto, no entanto, ao observar a pessoa de pé, o narrador fica atônito com o que vê sob a mortalha, jurando se tratarem dos cabelos encaracolados e negros de Ligéia..  

 E então se abriram vagarosamente os olhos do vulto que estava à minha frente. Aqui estão, afinal - chamei em voz alta -, nunca poderei enganar-me … Estes são os olhos grandes, negros e estranhos de meu perdido amor…de Lady. . . de Lady Ligéia!

Não temos certeza, afinal, se é Ligéia ou não quem levanta do caixão (ou mesmo se alguém levanta dele), vez que o vício do narrador faz dele uma testemunha sem muita credibilidade. Ainda mais pelo fato do homem ser obcecado com a memória da primeira esposa. Porém, não podemos descartar a hipótese de ter realmente ocorrido. Primeiro porque o elemento sobrenatural é recorrente nos contos do autor, e, segundo porque as frases ditas por Ligéia no leito de morte dão a entender que a força de vontade é capaz de sustentar a vida e, neste, caso, a vontade do narrador de vê-la viva pode ter sido responsável por seu retorno.

Essa aura de mistério e o tormento do narrador de viver sem a presença de sua amada nos conduzem pela narrativa de forma bem eficiente e embora a escrita não seja bem fluida, a leitura não fica chata ou massante, mais um mérito de Poe.

Assim como nos outros posts do projeto, vou citar alguns dos elementos presentes em “Ligéia” que se repetem em outros contos do autor. Alguns deles são: o narrador anônimo (elemento quase obrigatório), o fato de o narrador ser viciado em alguma substância que inebrie seu raciocínio,  a morte precoce da figura feminina e a fixação por uma parte específica do corpo (aqui os cabelos e olhos negros).

O conto me lembrou bastante "Morella". Creio que pelo fato de sua primeira esposa ser bem culta e estudiosa de assuntos metafísicos, mas também pela descrição dos olhos profundos da personagem. As duas também morrem precocemente, mesmo que aí haja a diferença primordial de que o esposo de Morella quase desejava o fim da vida de sua esposa, ao ponto que em "Ligéia", o narrador fica devastado com a perda da esposa. Além disso, o narrador de Morella deixa bem claro que nunca houve amor entre ele e a esposa, enquanto o narrador de Ligéia apresenta tanta devoção à esposa que não consegue nem lembrar quando começou a amá-la.  

Se vocês tiverem algo a acrescentar às minhas impressões, fiquem a vontade! Vou adorar saber seu ponto de vista sobre este conto e também se eu tiver deixado algo passar desapercebido.


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29 de novembro de 2016

Berenice, #12MesesDePoe

Apesar de ter publicado bastante aqui em Outubro, o post sobre o conto do mês para o #12MesesDePoe não saiu.  Em minha defesa, eu até li o conto em tempo e comecei a escrever, porém não consegui me focar para terminar o post e como o conto era o icônico Berenice, resolvi fazer sem pressa para não sair algo "de qualquer jeito".
Ilustração de Nelson Evergreen 

O conto narra em primeira pessoa a história de Egeu, um rapaz que não foi muito saudável durante a infância e literalmente, nasceu na biblioteca de sua casa. Por sua fragilidade física, o narrador era mais introspectivo e cultivava prazeres nas coisas do intelecto, especialmente na leitura. Na vida adulta, desenvolveu monomania, uma doença em que sua atenção era desviada por algo (poderia ser qualquer coisa, mesmo a mais simplória) e nela ele ficava absorto por um tempo considerável, como que em um transe.
Na mesma casa onde Egeu nasceu e cresceu, vivia sua prima, Berenice. Ao contrário dele, a jovem teve uma infância bem mais enérgica, na qual os passeios ao ar livre eram recorrentes, o que potencializava seu espírito vivaz.
No entanto, as coisas começam a mudar quando Berenice é acometida por uma estranha doença, que a deixa cada vez mais frágil, inclusive mudando sua aparência física. Motivado pela compaixão e não por amor, Egeu pede a prima em casamento, mesmo que a figura dela abalada pela doença lhe cause certo tremor. Se a aparência doente de Berenice lhe causa arrepios, pior é quando, ao acaso, Egeu vê os dentes dela em meio a um sorriso. Talvez pela dualidade de ser a única parte do corpo dela aparentemente inalterada pela doença ou pelo destaque que estes têm ao vislumbrar a imagem completa do que a prima se tornara, Egeu fica transtornado e passa a ficar obcecado e paranoico com seus dentes.
Este terror causado pelos dentes de Berenice no narrador é um dos principais pontos apontados por quem entende que ela é uma vampira. Outros pontos no conto também podem reforçar esta ideia, mas nada é claro quanto a isso. Muitas pessoas acreditam nisso tanto pelas partes no desenvolvimento do conto que podem deixar isso subentendido quanto pelo sentido que o final do conto passa a ter.
A parte dos leitores que não interpreta o conto como vampiresco, e na qual eu me incluo, atribui a doença de Berenice a ataques epiléticos e surtos de catalepsia, o que também pode ser reforçado durante a leitura.

❝ Diziam-me os amigos que, se eu
visitasse o túmulo da amiga, minhas preocupações seriam suavizadas.

Poe costumava usar uma parte do corpo de algum personagem como objeto de pavor/ obsessão de outro. Em Morella e n’O Coração Delator são os olhos, em Metzengerstein e em Hop Frog são os dentes que carregam uma aparência perturbadora/ odiosa. Aqui em Berenice, tem seu auge, quando o narrador se vê fixado neles, desencadeando um surto de sua monomania que culmina no final violento.
Tanto pelo teor do conto quanto pela violência contida nele, os leitores a época de sua publicação original ficaram horrorizados, o que motivou a remoção de quatro parágrafos do conto nas publicações posteriores. Como vi em comentários no grupo do projeto no Facebook, acho que é justo dizer que até hoje a maioria das edições não contém essas partes suprimidas. A minha é uma das que não contém. 
Mesmo apresentando elementos conhecidos como o personagem central atormentado, os objetos de obsessão já falados no parágrafo anterior e a figura feminina bela, mas frágil e moribunda, Berenice tem em suas peculiaridades o narrador cujo nome sabemos e a violência mais acentuada do que qualquer um dos outros contos lidos até agora para o #12MesesDePoe.


SPOILER >> Aos que ficaram curiosos para saber se leram a versão completa ou a editada, é só atentar para o momento em que Egeu visita Berenice antes de seu enterro. Os quatro parágrafos removidos são uma descrição deste momento, onde o protagonista percebe que a prima está viva. 



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21 de novembro de 2016

Oeste Vermelho

Pode ser que você não saiba, mas tenho um grande apreço por roedores e lagomorfos. Com isso em mente, não era de se estranhar que eu trouxesse Oeste Vermelho para casa sem pestanejar depois de apenas folhear a HQ por alguns segundos.
 Esta obra é de dois quadrinistas gêmeos, mas não, não se trata de uma obra de Fábio Moon e Gabriel Bá, mas sim de Marcelo e Magno Costa, que foram incríveis na criação deste western, vulgo faroeste, cujos personagens são gatos e ratos.

O enredo é até bem simples: os ratinhos habitantes de uma pacata cidade do velho oeste são surpreendidos com um boato sobre terríveis gatos chacinando uma cidade próxima. Alguns ficam extremamente receosos, outros preferem ignorar a história, mas o que era boato se torna um fato e os malfeitores sanguinários chegam até Nedville. Após promoverem um banho de sangue, os gatos seguem para outra cidade, porém, um dos ratos não está disposto a deixá-los impunes e segue em uma jornada em busca de sua vendeta.

Pela premissa, você pode me dizer que não vê nada de novo. Eu sou obrigada a concordar. Talvez Oeste Vermelho seja parecido com muitas coisas que você já viu antes, seja por seus animais antropomorfizados (já visto em Maus), por ser um western onde o mocinho quer vingança pelo bando que arrasou com sua cidade, etc. Porém, uma coisa da qual estou cada vez mais convencida é que, sendo bem desenvolvida, mesmo uma trama 'conhecida' pode se destacar. 
Este é um caso em que a história não é inovadora, porém a execução a torna uma excelente HQ. Partiu de uma ideia descompromissada, com uma premissa simples, e se converteu em uma ótima HQ, que distrai, empolga e diverte o leitor e acho que esse era o objetivo dos artistas.     

A arte da HQ é muito boa e fiquei especialmente impressionada com o talento do ilustrador para retratar os ratos de forma tão realística. As cores também chamam a atenção e a escolha da paleta usada foi muito acertada, na minha opinião. 
 Além disso, outros pontos de destaque da HQ são os enquadramentos bastante cinematográficos e também a quantidade de sangue... 

Essencialmente, Magno Costa é o responsável pelo roteiro e storyboard e Marcelo Costa é o ilustrador e colorista da HQ. No entanto, há um epílogo onde Magno é quem desenha e, nesta parte, o traço é bem diferente do restante da HQ, mais cartunesco.

Quando comprei a HQ, sabia claramente que o tinha feito porque tinha gostado muito das ilustrações de ratinhos que vi nela, mas ela conseguiu me surpreender positivamente e mostrou que além de ratinhos, uma arte e cores lindas, ela tem um roteiro bem eficiente para prender sua atenção.
 O resultado do trabalho é incrível e indico sem medo!


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